Remador do último porão


Quando nossos cabelos vão ficando brancos (na verdade os meus já começaram a embranquecer aos vinte e cinco anos) vamos entendendo um pouquinho melhor a vida, depois dos quarentas anos começamos a refletir sobre o que ouvimos e falamos, percebemos melhor o que leva alguém agir de uma forma ou de outra, no ministério aprendemos, sim, e temos que aprender, e às vezes pelas vias áridas, a confiar, depender e deleitar-se com Cristo. E nestas escolas da vida, uma lição que nunca devemos abandonar é alimentar-se da Palavra de Deus, isso mesmo, ler a Bíblia, e lê-la diariamente como uma dependência química, ao ponto de termos síndromes de abstinência quando não a lemos. E neste “vício”, em que faço questão de ter uma overdose diária, deparei-me com um texto no início do Evangelho de Lucas (1:1-4): 1Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, 2segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o princípio e foram ministros da palavra, 3pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelentíssimo Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio, 4para que conheças a certeza das coisas de que já estás informado. (ARC). Dando uma olhadinha rápida, é Lucas, o médico, escritor e pesquisador, o mesmo que escreveu o livro de Atos dos Apóstolos, fazendo uma breve introdução às suas narrações sobre a vida e obra do Senhor Jesus Cristo. No primeiro momento, a informação dada pelo texto, é que ele tem o objetivo de colocar em ordem, no sentido de ordem cronológica, os “fatos que entre nós se cumpriram, segundo nos transmitiram os mesmos os presenciaram desde o princípio, e foram ministros da palavra…”, entretanto, a última expressão no final deste texto (vs. 2) ministros da palavra, salta-me ao coração. Nas versões em português: ministros da palavra (ARC e ARA), servos da palavra (NVI), servos dedicados à Palavra (KJ), não nos dão a idéia do que realmente o que o texto quer dizer. Como assim? Tem algo de errado no texto bíblico? Não, o texto bíblico é verdadeiro e fiel! Embora a intenção seja dar este sentido de servo ou ministro da palavra, mas se comparamos com outros textos em que surge a palavra servo e ministro teremos em grego doulos (servo) e diakonos e leitourgos (ministro), e aqui a palavra grega é huperetes. Buscando o significado deste tal huperetes, fiquei chocado, pois huperetes além de declarar alguém que ajuda, alguém que ministra, qualquer que serve com as mãos, etc, quer dizer também remador de baixa categoria. Pois bem, remador de baixa categoria, o cara não era apto para o serviço de remador? Nada disso, ao entrarmos na história, vemos uma engenharia bem rudimentar, os navios do primeiro século ainda tinham muito dos barcos fenícios, estruturas de madeira, as velas ainda eram pouco utilizadas, vieram mais tarde nas caravelas e galeões. Pois bem, estes barcos antigos eram movidos pela energia humana, nas laterais das naus existiam pequenas janelas onde eram introduzidos os remos, em muitas embarcações vezes fazendo um conjunto de três andares de remadores, remadores estes que não eram contratados era trabalho escravo. Desertores, prisioneiros, condenados, etc., nada recebiam além da comida e da água, e isso tudo ao ritmo de um som de um tambor, chibatadas, suor, tortura. Os remadores de baixa categoria ou remadores do último porão eram para aqueles que remariam até a morte, não haveria outra oportunidade, era remar, remar, remar até morrer. Lucas, como um contraste aos nossos dias, coloca o ministro ou servo da Palavra de Deus como um caminho de serviço sem volta, uma vez recrutado é sentenciado, e por fim, condenado a realizar esta tarefa queira ou não queira até o último suspiro de vida. Em nossos dias ser ministro é sinônimo de fama, glória e status, antes o top era ser pastor, mas vieram muitos pastores, então para haver uma singular distinção entre o que é comum, vieram os apóstolos, e vieram muitos apóstolos, em continuando na mesma caminhada, para serem únicos, surgem os pais, patriarcas, pais-apóstolos, e remador do último porão nada! Remador do último porão não aparece, está mergulhado em meio à escuridão, umidade, suor, fome, remando sem ser notado, mas o barco continua andando, seguindo o curso, o que importa é remar, remar, remar até morrer. Servo e ministro remam sem parar, pois tem em mente que ele mesmo é servo, escravo e não Senhor, trabalham não para serem servidos, mas para servirem. Que o Espírito de Deus nestes dias venha dar-nos entendimento no que é servir, entregar-se até as últimas conseqüências sem esperar nada em troca. Paz e bem

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