O nazareno e o cireneu.


“Ao saírem, encontraram um cireneu, chamado Simão, a quem obrigaram a carregar-lhe a cruz.” (Mateus 27.32) A cruz fedia. Havia muito sangue ressecado. Os guardas romanos exigiram, sob ameaça, que eu ajudasse a levar a cruz do Nazareno tumultuador. A cruz era pesada, doía nas costas, feria a pele. O peso era do condenado, mas eu é que carregava, e eu não tinha nada a ver comigo. Vinha do campo, depois de um dia cheio de trabalho, e ia para o sossego de minha casa, quando encontrei a multidão. Eu achava que nada tinha a ver com o Nazareno tumultuador, mas na distância até o Calvário, Ele me ensinou coisas sem dizer palavras e me amou sem me dar um abraço. Seu rosto era sereno, sofrido, mas sereno, acho que via algo que multidão não via. O sangue escorrendo-lhe da face fez-me lembrar da ovelha muda enviada ao sacrifício, o qual perdoaria os pecados do povo, conforme está escrito na Lei de Moisés. Fiz esse sacrifício da ovelha muitas vezes. Embora natural de Cirene, uma colônia grega, assumi o judaísmo de corpo, alma e família, como minha nova religião. Ao sacrificar a ovelha, sentia o alívio da culpa do pecado (porém não sentia o alívio do pleno perdão do Deus Altíssimo). O Nazareno parecia muito com essa ovelha a caminho do sacrifício… Apesar de caminhar para a morte, Ele olhava para todos com ternura e amor, inclusive para mim. Parece que seus olhos me diziam: “Obrigado Simão!… Essa cruz é muito pesada, pois leva os pecados de toda a humanidade e também os teus pecados! Logo encontrarás o alívio que buscas…” De súbito, uma luz brilhou em meu entendimento, como se meus olhos abrissem para as Escrituras que tanto lia. Percebi claramente tudo o que estava escrito na Lei de Moises e nos Profetas acerca do Messias prometido para o povo de Israel. As palavras do profeta Isaías vieram-me à mente: “Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos. Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca.” Não era um Rei militar e guerreiro que seria enviado, era um Rei manso e humilde, com um reinado espiritual, nascido em estrebaria, portador de uma nova mensagem, semeador de milagres, perdoador de pecados, ensinador de palavras sábias, confrontador de poderosos, convidando a todos para aprenderem dEle, oferecendo-lhes a vida eterna e a promessa de fazerem aliança de paz com o Deus Altíssimo. Tudo se encaixava perfeitamente nas palavras, nas obras e na morte iminente, daquele que eu chamava de Nazareno tumultuador. Era necessário o Messias sofrer tudo o que estava escrito nos rolos do profeta Isaías e nos Salmos, que viesse humilde, que sofresse e morresse como ovelha muda, e que levasse no seu corpo todos os nossos pecados, nos conduzindo para a vida eterna! Meu coração se derramou em lágrimas, triste por meu pecado, feliz por encontrar o Messias Salvador de um modo tão inusitado. Disse baixinho, com a alma quebrantada:“Meu Salvador e Deus meu!”. Ele levantou seu rosto ferido e seu olhar terno encontrou-se com o meu. Nada precisou ser dito. Sua compreensão, seu perdão e sua paz, invadiram a minha alma. Entendi, agora, que eu tinha tudo a ver com Ele. A cruz não era mais pesada. Minhas costas não doíam mais. O caminho até o Calvário não era mais penoso, pois vislumbrei que o glorioso sacrifício do Servo Sofredor logo traria a aurora da ressurreição, lançando a luz da salvação eterna para todo aquele que nEle crer! “Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si.” (Isaías 53.11) Paz e bem

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