O projeto anti-cristão da agenda gay.

A inversão de valores propagada pela mídia revela um projeto incisivo de destruição da moral cristã Os noticiários não falam de outra coisa. O liberalismo sexual, no qual se inclui a causa gay, ganhou de vez as manchetes dos principais jornais do país, numa avalanche que parece não ter mais freio. A unanimidade da imprensa em decretar o novo padrão de moralidade é tão eloquente que os mais desavisados sentem-se quase que impelidos a concordar com ele, mesmo que a contragosto. Mas enganam-se aqueles que, ingenuamente, atribuem essas movimentações ao curso natural da história. Trata-se, pelo contrário, de uma agenda compacta, determinada e amplamente financiada, cuja única meta é: minar os fundamentos da sociedade ocidental – o direito romano, a filosofia grega e a moral judaico-cristã – e, em última análise, a natureza humana. Não é mais segredo para ninguém a hostilidade com que inúmeras nações se referem ao cristianismo. Praticamente todos os programas de governos atuais têm por política o combate aos últimos resquícios de fé católica que ainda restam na sociedade. E essa agenda ideológica encontra eco sobretudo nas Organizações das Nações Unidas, logicamente, a mais interessada na chamada “Nova Ordem Mundial”. Essa perseguição sistemática à religião cristã e, mais especificamente à Igreja Católica, se explica pelo fato de ela ser única a levantar a bandeira da lei natural, que é a pedra no sapato dos interesses globalistas. Em linhas gerais, o direito natural refere-se ao que está inscrito no próprio ser da pessoa. Isso supõe uma ponte de acesso a uma moral humana já pré-estabelecida, com direitos e deveres naturais, conforme a ordem da criação. Não corresponde a um direito revelado, mas a uma verdade originária do ser humano, que através da razão indica aquilo que é justo ou não. Essa defesa do direito natural foi o grande diferencial do cristianismo em relação às demais religiões no início do primeiro milênio, como assinala o Papa Emérito Bento XVI ao Parlamento Alemão, em um dos discursos mais importantes de seu pontificado: “Ao contrário doutras grandes religiões, o cristianismo nunca impôs ao Estado e à sociedade um direito revelado, nunca impôs um ordenamento jurídico derivado duma revelação. Mas apelou para a natureza e a razão como verdadeiras fontes do direito; apelou para a harmonia entre razão objectiva e subjectiva, mas uma harmonia que pressupõe serem as duas esferas fundadas na Razão criadora de Deus”, (Cf. Bento XVI ao Parlamento Federal da Alemanha em 2011). A partir do último meio século, ressalta o Santo Padre, o direito natural passou a ser menosprezado, em grande parte, devido à razão positivista. Passou-se a considerá-lo como “uma doutrina católica bastante singular, sobre a qual não valeria a pena discutir fora do âmbito católico, de tal modo que quase se tem vergonha mesmo só de mencionar o termo”. Com efeito, para o teórico positivista Hans Kelsen, a ética deveria ser posta no âmbito do subjetivismo e, por conseguinte, o conceito de justiça. Criou-se, portanto, uma situação perigosa da qual o próprio Kelsen foi vítima posteriormente, quando perseguido pelo regime nazista por ser judeu. A justiça e a ética caíram no relativismo. Cada um julga-se a si mesmo, julga-se o conhecedor do bem e do mal. E “quando a lei natural e as responsabilidades que implica são negadas, – alerta outra vez Bento XVI em uma catequese sobre Santo Tomás de Aquino – abre-se dramaticamente o caminho para o relativismo ético no plano individual e ao totalitarismo de Estado no plano político”. Como condenar os regimes nazistas, fascistas e comunistas por suas atrocidades se a justiça é um conceito relativo a cada um? A Igreja condena a perversidade do relativismo justamente por essa falsa sensação de liberdade propagandeada por ele. É a mesma liberdade oferecida pela serpente do Éden à Eva, a falsa beleza que, na verdade, é escravidão. Quando exposta em termos claros e diretos, a lei natural se torna evidente e com ela, todo o arcabouço que a sustenta: o direito romano, a filosofia grega e a moral judaico-cristã. A lei natural encontra apelo no ser humano justamente por ser verdade e estar de acordo com a razão criadora, o Creator Spiritus. O Magistério Católico é, neste sentido, um dos únicos baluartes da justiça e da dignidade da pessoa humana, por falar quase que solitário em defesa da lei natural. O trabalho da elite globalista – diga-se ONU, imprensa, ONGs esquerdistas e etc – consiste, neste sentido, única e exclusivamente na destruição desses pilares da lei natural. Assim, sepultam-na numa espiral do silêncio, enquanto reproduzem na mídia uma moral totalmente avessa e contrária à família. Desse modo, abrem espaço para a educação das crianças pelo Estado conforme a cartilha ideológica que defendem. É um programa totalmente voltado para a subversão e o controle comportamental que está sendo colocado em prática, descaradamente, por países como Estados Unidos, França, Suécia, Holanda e até mesmo o Brasil. Neste momento, em que a Igreja vê-se atacada por todos os lados e se joga com a vida humana como se fosse algo qualquer e sem valor, urge o despertar de pessoas santas, imbuídas por uma verdadeira paixão à Verdade. Todas as grandes crises pelas quais a Igreja passou nos últimos séculos foram enfrentadas por santos de grande valor: São Luís Maria Grignion de Montfort, São João Maria Vianney, Santa Catarina de Sena, São Pio X… E essa crise atual requer a mesma fibra, o mesmo destemor e parresia com os quais aqueles santos estavam dispostos a entregar suas vidas, suas fortunas e até mesmo os seus nomes, sem medo da humilhação, firmes na Providência Divina e na certeza de que no alvorecer do novo dia será de Deus a última e definitiva palavra. Por: Equipe Christo Nihil Praeponere

Corrupção: aspectos sociais, bíblicos e teológicos

No Brasil, até um tempo atrás, corrupção era vista como coisa normal; não havia tanta tensão sobre o assunto. Alguns aceitavam, de forma pragmática, o suborno sendo visto como um pouco mais do que “um jeito diferente de fazer negócios”. Outros apenas faziam “vista grossa”. Existe, é verdade, essa cultura do “jeitinho”, da malandragem como parte da maneira de ser brasileiro, quase que uma exaltação dessa habilidade da nossa gente de encontrar formas “criativas” para resolver problemas. A corrupção, como ela se manifesta em nosso país, entra também por meio dessa validação cultural e quase que institucionaliza a sua prática. Com o desenvolvimento econômico do país, a indignação contra a corrupção, de alguma forma, se dilui. Alexandro Salas, diretor para as Américas da Transparência Internacional, diz o seguinte: “Quando um país começa a ter uma economia mais sólida, é mais fácil ver um cidadão comum perdoando atos corruptos, porque ele não faz um vínculo direto de como a corrupção o afeta. Se agora ele tem um bom trabalho, um carro e se o ministro rouba, ele fica irritado, claro, mas acha que isso não o atinge diretamente.” No ranking de Percepção da Corrupção da ONG em 2012, o Brasil ocupou a 69ª posição, entre 176 países. Já no que lista o grau de proprinas pagas, o país ficou no 14º lugar – foram 28 países analisados. O Promotor de Justiça, Jairo da Cruz Moreira, aponta os dez atos de corrupção mais presente no dia-a-dia do cidadão comum: – Não dar nota fiscal; – Não declarar Imposto de Renda; – Tentar subornar o guarda para evitar multas; – Falsificar carteirinha de estudante; – Dar/aceitar troco errado; – Roubar assinatura de TV a cabo; – Furar fila; – Comprar produtos falsificados; – No trabalho, bater ponto pelo colega; – Falsificar assinaturas. “Aceitar essas pequenas corrupções legitima aceitar grandes corrupções”, afirma o promotor. “Seguindo esse raciocínio, seria algo como um menino que hoje não vê problema em colar na prova ser mais propenso a, mais para frente, subornar um guarda sem achar que isso é corrupção.” Em seu livro “Dando um Jeito no Jeitinho”, Lourenço Stelio Rega apresenta o que ele chama de ciclo vicioso da corrupção que se inicia no descaso das autoridades que leva o povo a sentir-se no direito de transgredir a norma e, por conseguinte, dar um “jeito”, pagando suborno para não ser punido. O pagamento de suborno a uma autoridade pública reestimula a corrupção, gerando impunidade e fechando, assim, o círculo. O antropólogo Roberto DaMatta defende que essa prática sistêmica é uma forte razão pela qual o brasileiro é complacente com a corrupção na política, por exemplo. Nas palavras dele, “uma sociedade de rabo preso não pode ser uma sociedade de protesto”. O ex-secretário geral das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan, certa vez disse: “A corrupção é uma praga insidiosa que tem um largo espectro de efeitos corrosivos nas sociedades. Ela sabota a democracia e o texto da lei, leva a violações dos direitos humanos, distorce os mercados, corrói a qualidade de vida e facilita o crime organizado, terrorismo e outras ameaças ao florescimento da segurança da humanidade. A corrupção fere o pobre desproporcionalmente através dos desvios de fundos que deveriam ir para o desenvolvimento, compromete a habilidade do governo em prover serviços básicos, alimenta a desigualdade e a injustiça, além de desencorajar a ajuda e o investimento externo. Corrupção é o elemento chave no mau desempenho das economias e o principal obstáculo ao desenvolvimento e ao combate à pobreza”. Chico Buarque homenageia o malandro às avessas, aquele que tem família, que trabalha, que deixou a criminalidade. Penso que essa poesia retrata bem a mudança na maneira de enxergar a questão da corrupção no contexto brasileiro, apontando que há algo problemático com essa “ética do jeitinho”. Homenagem ao Malandro (Chico Buarque) “Eu fui fazer um samba em homenagem
 à nata da malandragem, que conheço de outros carnavais.
 Eu fui à Lapa e perdi a viagem,
 que aquela tal malandragem não existe mais.
 Agora já não é normal, o que dá de malandro
 regular profissional, malandro com o aparato de malandro oficial,
 malandro candidato a malandro federal,
 malandro com retrato na coluna social;
 malandro com contrato, com gravata e capital, que nunca se dá mal.
 Mas o malandro para valer, não espalha,
 aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal.
 Dizem as más línguas que ele até trabalha,
 Mora lá longe chacoalha, no trem da central”. De que corrupção nós estamos falando? A Bíblia trata do tema da corrupção da raça humana e do plano redentor de Deus, do Gênesis ao Apocalipse; a corrupção “lato sensu” (o pecado, de uma forma geral), que se desdobra em corrupções “strito sensu” (manifestações específicas da rebelião humana). Nosso foco é na corrupção como ferramenta de opressão econômica, afronta ao pobre; a negação do acesso do outro aos direitos básicos pela malversação de dinheiro público, pagamentos de propinas, superfaturamentos, etc… Bryan R. Evans, da ONG Tearfund, em sua livro “O custo da corrupção”, circunscreve o entendimento de corrupção à fraude, apropriação indébita e suborno que podem ocorrer através do abuso de poder, formação de cartel ou negócios escusos/nebulosos. Além disso, ele categoriza a corrupção em três tipos: a incidental, a sistemática e a sistêmica. O fato é que “corrupção” andará sempre de mãos dadas com a pobreza e, por esse motivo, ela é uma questão de ordem moral e de direitos humanos. Vejamos alguns efeitos práticos da corrupção: o alto custo do acesso aos serviços de saúde e educação; padrões de saúde e segurança públicas precárias, riscos ambientais, violação dos direitos humanos, precariedade do acesso à justiça. Além das mulheres e das crianças, os portadores de deficiência, pessoas com vírus HIV, idosos e os refugiados estão entre os que mais sofrem as consequências da corrupção. O que a Bíblia tem a dizer sobre o assunto? Ao refletirmos nas Escrituras, o que se espera que seja a práxis da igreja de Cristo? “E criou Deus o homem à Sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1.27). “E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto” (Gn 1.31). A desobediência da criatura humana abre as portas para toda a cultura de violência e morte que vai descaracterizar a imagem de Deus no homem. “A terra, porém, estava corrompida diante de Deus, e cheia de violência. Viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra” (Gn 6.11-12). A corrupção, como a conhecemos, é talvez a violência em sua forma mais cruel. Não é possível dissociarmos a ideia de corrupção daquilo que entendemos como violência contra a dignidade humana, seja pela promoção da precarização dos serviços públicos, pela facilitação do crime ou pelo incentivo ao aumento da miséria. A corrupção aflige a terra desde a Queda. Não é surpresa, portanto, que muitos a vejam como algo normal, inevitável; um mal necessário na condução dos negócios e a forma como o rico e o poderoso levam sempre vantagem sobre o pobre e o fraco. Porém as Escrituras deixam claro que a corrupção é uma injustiça e, mais do que isso, elas requerem um posicionamento contra a corrupção. O relato de corrupção, propina ou suborno mais conhecido da história está na Bíblia. Foram as 30 moedas de prata dadas pelos sacerdotes judeus a Judas Iscariotes para que ele os levassem até o Jardim do Getsemani, onde Jesus e os discípulos passavam a noite. Lá Judas mostrou a eles através do beijo da traição quem era Jesus. Judas era ganancioso e o dinheiro significava para ele, muito mais do que lealdade ou amor. Ele foi motivado por ganância e ganho pessoal. Quando ele se deu conta do mal feito e das consequências da sua traição, jogou as moedas no pátio do templo e cometeu suicídio (Mt 26 e 27; Mc 14; Lc 22). Corrupção em forma de propina ou suborno é condenada ao longo de toda a Escritura Sagrada. Samuel foi o primeiro dos profetas do Antigo Testamento e um grande líder em Israel. Porém, mais tarde em sua vida, em sua casa, ele acusou os seus filhos de não andarem em seus caminhos. Foram avarentos, aceitaram subornos, torceram a lei (1 Sm 8.3). A distorção da justiça é uma das piores consequências do suborno porque permite que o rico explore o pobre. Na despedida que Samuel fez junto ao seu povo na coroação do rei Saul, ele perguntou: “…diga-me de quem recebi suborno e com ele encobri meus olhos, e eu vo-lo restituirei?” (1 Sm 12.3). Ele teve uma vida exemplar e a multidão não hesitou em responder: “em nada nos defraudaste, nem nos oprimiste, nem recebeste coisa alguma da mão de ninguém” (1 Sm 12.4). Davi, rei de Israel, fez uma pergunta retórica no Salmo 24: “Quem subirá ao monte do Senhor ou quem estará no seu lugar santo? Aquele que é limpo de mãos e puro de coração. Que não entrega a sua alma à vaidade e nem jura enganosamente.” No Salmo 26, porém, ele apresenta o homem que tem a mão direita cheia de subornos em contraste com o outro homem do Salmo 15.5 que “não empresta o seu dinheiro visando lucro e nem aceita suborno contra o inocente”. O profeta Isaías elogia “…aquele cuja mão não aceita suborno.” (Is 33.15). E o profeta Amós denuncia “vocês oprimem o justo, recebem suborno e impedem que se faça justiça ao pobre nos tribunais” (Amós 5.12). Escrevendo sobre a Bíblia e a corrupção, Hermes C. Fernandes apresenta textos bíblicos categorizados em modos distintos de fraude financeira nas esferas pública e privada, mostrando a corrupção como algo inaceitável diante de Deus: – Advertência contra a corrupção no funcionalismo público: Lc 3.12-13. – Advertência contra a corrupção policial: Lc 3.14. – Advertência contra a corrupção no Poder Judiciário: Dt 16.19-20; Ex 23.8; Pv 17.23; Is 5.22,23; Sl 82.2-5a; Lv 19.15. – Independência entre os poderes: Mq 7.2-3. – Advertência contra a corrupção no Poder Executivo: Is 1.23; Pv 29.4; Pv 16.12. – Advertência acerca dos assessores corruptos: Pv 25.5. – Advertência contra a corrupção no Poder Legislativo: Is 10.1-4 – Advertência contra a corrupção e a ganância no meio empresarial: Ez 22.12-13a; Pv 16.8; Pv 22.16. – Advertência contra juros absurdos praticados pelo Sistema Financeiro: Pv 28.8; Ez 18.5,7-9; Ex 22.25; Sl 112.4-5,9. – Advertência acerca dos Direitos trabalhistas: Jó 31.13-14; Ml 3.5; Cl 4.1; Lv 19.13. – Advertência contra lucros desonestos: Os 12.7; Dt 25.13-16; Pv 11.1; Pv 16.11; Mq 6.11; Lv 19.35-36. No primeiro século depois de Cristo, o apóstolo Paulo se recusou a pagar suborno ao governador romano Félix. O governador admitiu que Paulo não havia feito nada de errado, mas ainda assim o manteve na prisão porque “esperava que Paulo oferecesse a ele algum dinheiro” (At 24.26). Esse tempo na prisão poderia ser gasto em visitas e encorajamento às igrejas que Paulo havia fundado, ou (quem sabe) fazendo a tão sonhada viagem missionária à Espanha. Nenhuma “justificativa” para o suborno poderia ser maior do que essa que o apóstolo teve, mas ele se recusou a aceitá-lo. Essas passagens nos mostram que, tanto no Antigo como no Novo Testamentos, o suborno é entendido como um pecado contra Deus. Uma perversão da justiça que permite com que o rico explore o pobre – e dentre os pobres, mulheres e crianças são os que mais sofrem. Abusos de poder que só satisfazem a ganância. A corrupção não é apenas moralmente errada. Ela mina o desenvolvimento econômico, distorce a lisura na tomada de decisões e destrói a coesão social. A corrupção mata! A corrupção é desonra a Deus e, por isso, é a antítese do amor ao próximo. No episódio de Caim e Abel, em Gênesis 4, vemos Caim buscando “comprar” o reconhecimento do Senhor; e para tanto, Caim decide tirar a vida do seu irmão. O Senhor Deus questiona a Caim sobre o paradeiro de seu irmão. Caim responde com uma pergunta que tenta justificar a sua independência arrogante: “Acaso sou eu o guardador do meu irmão?” (v 9). Somos, ou deveríamos ser, os guardadores do nosso próximo; promotores de conciliações, construtores de pontes e não agentes de violência e morte. Como vimos no texto de Gn 6 “… a terra estava corrompida aos olhos de Deus e cheia de violência”. Sendo discípulo de Jesus contra a corrupção Considerando que a corrupção, na perspectiva que está sendo descrita, é um dos maiores, senão o maior, ato de violência direta ou indireta do homem contra o seu semelhante e contra a criação, o que, então, um discípulo de Jesus pode fazer? Que contribuição a igreja pode dar na luta contra a corrupção? Considerando que toda lei de Deus converge em Cristo, atraindo-nos pelo amor e conclamando-nos ao amor a Deus e ao próximo (Mt 22.36-38), aquele que é a expressão perfeita da vontade do Pai para o homem, nos aponta o caminho a seguir: 1. Jesus nos apresenta o modelo da não-violência Na noite em que foi preso, quando um soldado veio na direção de Jesus, o Mestre advertiu Pedro que já estava pronto para reagir: “Ponha a espada de volta…o que vive pela espada, morrerá por ela” (Mt 26.52). Diante de Pilatos, Jesus também faz uma declaração que sugere um caminho alternativo na relação com os poderes temporais: “Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (Jo 18.36). Os valores do reino de Deus são distintos; subvertem a lógica dos reis. O poder dos discípulos de Jesus é poder para ser e para servir, e não para revidar com a mesma moeda. O modelo de combate do cristão não passa pela reprodução da violência, mas sim por um comprometimento com a paz e com o amor, por meio de ações de serviço. 2. Jesus apresenta a fonte da violência “E, chamando outra vez a multidão, disse-lhes: Ouvi-me vós, todos, e compreendei. Nada há, fora do homem, que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai dele isso é que contamina o homem. Porque do interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, as prostituições, os homicídios, os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Todos estes males procedem de dentro e contaminam o homem” ( Mc 7.14-23). Ainda que a violência em forma de corrupção possa ser manifestada através de sistemas, esquemas e estratagemas, sabemos que a fonte será sempre o coração corrupto do homem. E é muito bom entendermos isso porque nos ajuda a colocar as coisas em perspectiva e a compreendermos pelo menos duas coisas: 1) que, potencialmente, todos nós estamos sujeitos aos descaminhos e precisamos ser cuidadosos em como vivemos a vida; 2) que a corrupção é uma questão de decisão pessoal, e não o fruto de um sistema sem rosto. Cada escolha, uma responsabilidade. 3. Jesus nos encoraja a enfrentarmos a violência com bravura Jesus ensinou que o mundo é um lugar perigoso de se viver. Mas ele desafiou seus seguidores a não terem medo. “Não temam aqueles que matam o corpo mas não podem matar a alma.” (Mt 10.28). Ele também disse: “Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo” (Jo 16.33). “Tenham ânimo!”. Numa das traduções desse texto para o inglês, encontramos a expressão “sejam bravos!”. Que tipo de bravura é essa que Jesus pede dos seus seguidores? 4. Jesus exige de nós uma resposta à violência Penso que é no Sermão do Monte que vamos encontrar aquilo que Jesus deseja que seus discípulos façam em relação à corrupção, e a qualquer forma de violência. As palavras do Mestre tratam dos desafios da vida real. É quando ele diz: “Felizes os pacificadores, pois eles serão chamados filhos de Deus” (Mt 5.9). Fazer a paz dá trabalho, trabalho duro, trabalho frustrante, muitas vezes inconveniente. Felizes aqueles que gastam as suas vidas a serviço da reconciliação e da “shalom”. Em seu livro “Discipulado”, o teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer disse:”Os seguidores de Jesus foram chamados para a paz. Quando ele os chamou, eles encontraram sua paz, porque ele é a sua paz… Mas a eles foi dito que deveriam não apenas ter paz, mas fazer a paz”. John Stott, em seu comentário do Sermão do Monte, diz: “Agora pacificação é uma obra divina. Por paz entenda-se reconciliação, e Deus é o autor de toda paz e reconciliação”. Pacificadores, portanto, são construtores de pontes num mundo de relações corrompidas. Pacificadores agem em nome de Jesus, na base dos valores do reino de Deus, promovendo diálogos para a reconciliação. Pacificadores enfrentam a corrupção de forma pacífica, inteligente e criativa, tendo sempre a justiça do Reino como referência para a “shalom”. Pacificadores vão às ruas e clamam pela paz; articulam-se com outros grupos que tenham interesse comum para fazerem trabalho conjunto; promovem campanhas; mobilizam igrejas na ação contra o mal em forma de violência e corrupção. Pacificadores acompanham as decisões políticas e buscam incidência pública objetivando a implementação de mecanismos de controle social e transparência. Pacificadores dão voz aos sem-voz. Pacificadores buscam diálogos possíveis e quando não é possível, falam sozinhos. Pacificadores são o sal que preserva o mundo da corrupção do mal. Pacificadores são a luz que traz às claras aquilo que se esconde na escuridão. Pacificadores bem-aventurados; que têm fome e sede da justiça de Deus. Corrupção é uma questão de caráter Não se garante transformação de caráter através de controle social e transparência na administração pública. Por outro lado, não é possível haver administração pública eficiente sem o envolvimento de pessoas de caráter nos processos de acompanhamento da governança. Há, portanto, dois níveis de ação da igreja nesse terreno: O primeiro é o de fazer um chamado à própria igreja a um posicionamento ético que identifique os frutos de justiça produzidos pela ação do Espírito Santo na vida daqueles que se dizem participantes da nova criação. Ou seja, precisamos admitir que a igreja pode ser parte do problema da nação. Uma instituição corrompida e corruptora não tem o que dizer em matéria de ética na governança pública. O outro nível de ação nos move na direção de uma maior incidência pública para a garantia do cumprimento das leis, ou a criação de novas leis, que contribuam para a construção de um ambiente social onde se garanta um mínimo de justiça e paz. Aqui cito Carlos Queiroz para argumentar em favor de um engajamento da igreja nas questões de justiça e paz no mundo dos homens: “A justiça de Deus é bem maior que o conceito de justiça do ser humano. É baseada em valores como mansidão, sensibilidade, misericórdia e amor. Mas isso não quer dizer que a justiça de Deus é menor do que o mínimo exigido pela justiça humana, como o direito à habitação, alimentação, saúde, educação, lazer, liberdade de exercer a vocação humana.” “Uma igreja socialmente responsável se utilizará dos instrumentos democráticos para que a sua espiritualidade em missão tenha incidência nas políticas públicas, nos direitos do cidadão e nos testemunhos de boas obras e prática da justiça.” Deus quer vida; a corrupção destrói a vida. Deus quer justiça; a corrupção oprime o pobre roubando-lhe os direitos. Deus quer riqueza honesta; a corrupção cria obstáculos ao desempenho econômico. Deus quer comunidade; a corrupção destrói a confiança e a segurança. Deus quer dignidade; a corrupção destrói a dignidade e a credibilidade. Deus quer paz; a corrupção fortalece a violência e os instrumentos de guerra. A luta contra a corrupção, portanto, faz todo o sentido para aqueles que dizem conhecer o Deus incorruptível e almejam viver para servi-lo, refletindo na vida o seu caráter santo. A revelação de Deus na Sua Palavra nos confronta, nos transforma e nos move à missão. A missão se dá no solo real de um mundo corrompido e fraturado. A missão nos aponta o caminho em direção ao solitário, ao pobre e ao oprimido. Sempre que a igreja busca se envolver na justa causa contra a corrupção estará respondendo a Deus de forma diferente de Caim: “Eu sei, sim, onde está o meu irmão, porque sou responsável por ele. Sua vida me diz respeito. Como posso servi-lo?”. Nota: artigo publicado originalmente no site da Aliança Evangélica. _______ Daniel de Almeida e Souza Júnior, pastor batista, é missionário da SEPAL e trabalha com o Núcleo de Ação Urbana, em Macaé (RJ). É assessor de Missões Urbanas da Aliança Cristã Evangélica Brasileira.

A destruição da infância.

Imagine que você tenha uma filha pré-adolescente e precise matriculá-la na escola para iniciar os estudos do Ensino Fundamental. Agora imagine que a professora de sua filha precise dar aulas de Educação Sexual e, para isso, conte com o auxílio de uma cartilha do governo com imagens de pessoas fazendo sexo. Não bastasse isso, imagine também a mesma professora incentivando danças nas quais sua filha tenha de simular relações sexuais com um menino. Ficou espantado? Justo! Mas, apesar das cenas acimas parecerem irreais, na prática, já se tornaram parte do currículo escolar de uma porção de alunos Brasil afora. A Educação Sexual para jovens, ao contrário do que se costuma dizer no círculo das classes falantes, não é um método para discutir tabus, sequer informar a juventude sobre riscos de DSTs ou gravidezes indesejadas. O foco principal desse trabalho é estimular um novo padrão de comportamento baseado no perfil desejado por ONGs e fundações internacionais. O Conselho de Informação e Educação Sexual dos Estados Unidos (Siecus), grande colaborador no que tange à produção de material para esses assuntos, faz uma clara apologia em seu site de práticas como “masturbação”, “aborto” e “materiais pornográficos”. Coisas do gênero são vistas como direitos sexuais. Por outro lado, a mesma instituição defende o fim do financiamento do Estado para programas que promovam a abstinência e a castidade por, segundo eles, não produzirem um resultado efetivo, satisfatório. O que é uma mentira deslavada! Para pôr fim ao embuste, basta pegar as declarações do diretor do Projeto de Pesquisa e Prevenção da Aids da Escola de Saúde Pública de Harvard, Edward Green, para constatar o quão a Igreja estava e está certa no debate sobre o uso da camisinha. Ou então observar a queda do número de soropositivos na Uganda, após o governo adotar uma política de incentivo à castidade e à fidelidade conjugal. Ao contrário do que dizem os promotores desse tipo de educação, o ensinamento da Igreja quanto à sexualidade não está radicado em “crenças religiosas ultrapassadas”, mas na própria razão humana. Uma árvore é reconhecida pelos seus frutos e os frutos da educação sexual são jovens iniciando sua vida sexual cada vez mais cedo. De acordo com uma pesquisa do próprio IBGE, 30% dos adolescentes de 15 anos já tiveram sua primeira relação. Número assustador e que revela o quão perniciosa é a famigerada educação sexual. A família é a primeira escola de valores da criança e é por isso que o Magistério da Igreja insiste tanto no assunto. A aprovação do divórcio, os métodos contraceptivos e os novos padrões de família inocularam no pensamento das pessoas a ideia de que o casamento seja uma instituição falida. Um mero arranjo contratual no qual as partes contratantes prestam serviços sexuais uns aos outros até um deles enjoar. Isso representa uma verdadeira prostituição do matrimônio. É dessa mentalidade maluca que se abre espaço para uma educação cada vez mais apelativa e promotora de comportamentos sexuais absurdos. É de responsabilidade dos pais educarem seus filhos e promoverem uma reta compreensão da dignidade humana. Não é à toa que São Pio X afirmou que os familiares que descuidam de tal obrigação são “culpados diante de Deus”. Jesus advertiu categoricamente para o zelo com as crianças. Escandalizá-las é um crime terrível que clama aos céu, e ai daquele que o fizer, “mais lhe valeria que encaixasse no pescoço uma pedra de moinho e se jogasse ao mar” (Mc 9, 47-48). Autor: Equipe Christo Nihil Praeponere

A crise na educação das crianças.

O debate em torno das novas propostas de família traz à tona uma questão que, muitas vezes, passa despercebida: a educação das crianças. O lar, conforme ensina o Papa Paulo VI, é “a primeira escola das virtudes sociais de que as sociedades têm necessidade”. A mãe e o pai, por conseguinte, têm não só o dever, mas também o direito de transmitir aos filhos aqueles tantos valores que convergem para uma correta compreensão da dignidade da pessoa humana. Portanto, esse direito dos pais é inegociável e não pode de maneira alguma ser usurpado ou vilipendiado. Acontece, não raras vezes, de se chegar à conclusão de que a família, apesar de sua fundamental importância para a justa ordenação da sociedade, encontra-se sob constante ataque nas suas estruturas, seja por meio de ideologias, seja por ações do próprio Estado. Esses ataques nada mais são que uma ferramenta utilizada por governos totalitários, a fim de assumirem o controle da educação das crianças e, desse modo, solaparem a clareza do direito natural e suplantarem em seu lugar um novo padrão de comportamento. A técnica é muito bem apresentada na obra de Geoge Orwell, “A revolução dos bichos”, quando o Estado toma os filhotes de uma das personagens para educá-los e transformá-los em militantes do partido. Ademais, o controle da educação das crianças é imprescindível para que o Estado consiga eliminar a fé da sociedade, pois a geração proveniente de uma escola sem valores dificilmente estará aberta aos ensinamentos da Igreja. Um caso emblemático de como esse tipo de política é danosa é a Suécia, onde as constantes ingerências do governo promoveram, de uma forma assustadora, a maior taxa de aborto em adolescentes de toda a Europa. As escolas foram transformadas em salas de bate-papo sobre sexo e os casos de estupros tiveram um aumento de 1000 porcento, como atesta Johan Lundell, secretário-geral do grupo sueco pró-vida Ja till Livet. Tudo ao arrepio da sociedade que, proibida de educar seus filhos em casa, vê-se obrigada a ter de escutar das crianças que os professores em sala de aula lhes perguntaram o que as excitavam. [1][2] Não obstante a esse exemplo lamentável da Suécia, a elite globalista, leia-se ONU e outras fundações internacionais, não perde a oportunidade de exigir das nações a implantação imediata de medidas contrárias à dignidade da família e da criança, como “casamento” gay e educação sexual. É dessa maneira que, ajudado pelo lobby dos meios de comunicação, o Governo aprova uma lei que obriga os pais a matricularem seus filhos nas escolas a partir dos quatro anos de idade. É dessa maneira que jornais de grande audiência no país colocam um sexólogo para discutir o que é ejaculação com crianças de 10 a 11 anos. Isso em plena luz do dia. A mesma petulância vale para ridicularizar a fé, sobretudo a cristã, e intimidar aqueles que apresentem qualquer tipo de oposição. A título de exemplo, veja-se o caso de um aluno da Universidade Atlântica da Flórida, nos Estados Unidos, que após recusar-se a escrever o nome de Jesus em uma folha e depois pisar sobre ela, a pedido de seu professor, acabou se envolvendo em uma briga que resultou na sua expulsão. Em sua defesa, o professor alegou que o garoto o havia ameaçado e que, ao contrário das acusações, ele era “uma pessoa muito religiosa” e identificava a si mesmo “como um cristão”.[3] Como se um verdadeiro cristão provocasse outro a blasfemar contra Cristo. De toda essa questão, o que se está em jogo não é somente a educação das crianças. Isso é só a ponta do iceberg. O que se está em jogo é a própria organização da sociedade e a fé que a sustenta. Engana-se quem enxergue a situação como um “progresso”. A instituição familiar e, por conseguinte, todo o arcabouço que dá forma à reunião de todo o gênero humano, encontra-se ameaçado, na iminência da instauração de uma cultura da morte. Tudo isso graças a uma mentalidade contraceptiva que viu no divórcio uma falsa liberdade. Os filhos tornaram-se bens de consumo e o casamento, de Sacramento à mera união contratual e com prazo de validade, baseada em sentimentos espúrios. Não! A família não é isso e nem pode ser. Assim, recobrar a genuinidade do matrimônio e a sua sacralidade é um passo fundamental para que a humanidade esteja verdadeiramente inserida na dignidade natural querida por Deus. O homem não se faz homem por si mesmo, mas por sua fidelidade inegociável ao modelo dado por Cristo. Paz e bem Por: Padre Paulo Ricardo.

O que vem depois da graça ?

Cresci ouvindo amigos de formação dispensacionalista afirmando que o tempo da lei passou e que agora vivemos o tempo da graça. Eles diziam que o Antigo Testamento, com suas leis e mandamentos, dera lugar ao Novo Testamento, em que tudo se resume no amor de Deus, um amor sem exigências, que nos aceita como somos; que o Deus justo e temível da antiga dispensação dera lugar ao Jesus manso e misericordioso da nova dispensação. Um tipo de evolucionismo divino. O dispensacionalismo foi muito criticado e combatido. No entanto, o que vemos hoje é o seu reconhecimento, não apenas pelos que creem nas diferentes dispensações na história da salvação, mas, sobretudo, pelos cristãos pós-modernos, que rejeitam mandamentos, leis ou qualquer chamado à obediência. O que importa é o amor. É preciso sentir-se amado para então amar. É preciso sentir-se aceito para então obedecer. O problema é que nunca se sentem suficientemente amados ou aceitos. No livro “Uma Força Medonha”, C. S. Lewis descreve um diálogo entre Ranson e Jane sobre casamento. Ela achava difícil confiar no marido porque sentia que já não o amava mais. Ranson então lhe diz: “A senhora não deixou de obedecer por falta de amor, mas perdeu o amor porque nunca tentou obedecer”. A relação entre o amor e a obediência é intensa e vital. Jesus também afirmou: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama” (Jo 14.21). A ruptura que muitos cristãos fazem entre o Antigo e o Novo Testamento, entre lei e graça, entre mandamento e amor, compromete tragicamente a formação do caráter cristão. O processo que envolve o crescimento e o amadurecimento cristão requer obediência consciente e diligente. Uma passagem bíblica que expressa bem isto está em 2 Pedro 1.4-7: “[…] ele nos deu as suas grandes e preciosas promessas, para que por elas vocês se tornassem participantes da natureza divina e fugissem da corrupção que há no mundo […]. Por isso mesmo, empenhem-se para acrescentar à sua fé a virtude, à virtude o conhecimento; ao conhecimento o domínio próprio […]”. As promessas foram cumpridas em Cristo. O propósito de Deus para o ser humano foi revelado. O caminho do crescimento espiritual foi escancarado com a vida, morte e ressurreição de Cristo. Maturidade cristã é tornar-se participante da natureza divina, revelada em Cristo. É por causa disso que devemos abandonar a corrupção que existe no mundo e nos entregar, deliberadamente, às virtudes, ao domínio próprio, à perseverança e a tudo o que nos leva a ser semelhantes a Cristo. É possível fazer isto sozinho? Não. Jesus afirmou: “[…] sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). Somente a graça de Deus pode realizar isto em nós. Porém, se eu nada fizer, nada será feito. É aqui que a obediência e o amor se encontram na experiência da fé. Os mandamentos de Deus não são uma negação de sua graça e amor, são sua afirmação. É a obediência aos mandamentos que nos leva a experimentar o amor divino. Pedro afirma que precisamos nos empenhar para acrescentar à nossa fé a virtude, o domínio próprio, a perseverança, a piedade, a fraternidade e o amor. Sou eu que tenho de me empenhar. A responsabilidade é minha. Ninguém fará isto por mim. Consigo fazer isto por conta própria? Não. Preciso da graça de Deus. Contudo, se eu não me esforçar para fazer, nada será feito. A formação do caráter cristão requer uma experiência intensa e poderosa com a graça de Deus. Deus, em Cristo, nos revelou seu amor, cumprindo por meio dele todas as promessas. Fomos salvos, regenerados e transportados do império das trevas para o seu reino de amor, justiça e paz. O caminho foi trilhado por ele, ele é o primogênito da nova criação. Sua vida consistiu em fazer a vontade do Pai e realizar a sua obra. A formação do caráter cristão requer a mesma obediência aos mandamentos de Deus. Um cristão passivo e apático jamais experimentará o real significado da graça divina e, mais cedo do que imagina, perceberá a fragilidade de seu amor por Deus. Não deixamos de obedecer a Deus por falta de amor, deixamos de amá-lo por não obedecer-lhe. Ricardo Barbosa De Sousa

O fim de qual mundo ?

Dizem que no próximo dia 21 de dezembro o mundo vai acabar. Esta coluna poderá ser a última escrita por mim! Mas será mesmo isto que acontecerá? Há daqueles que estão “preparados para o fim” até armazenando alimentos e construindo “bunkers” subterrâneos. A exploração na mídia e no cinema aponta para uma expectativa apocalíptica em torno da catástrofe iminente, embora pouco valorizada pela maioria.
 
A possível base para esta datação está no calendário maia que, pretensamente, aponta o ano de 2012 como o fim. No entanto, não há nada mais enganoso! Os maias nunca falaram em “fim do mundo”, mas sobre a conclusão de uma era ou o final de um ciclo, a partir de sua concepção cíclica do tempo, onde os acontecimentos voltam a se repetir. Os maias contavam o tempo de existência do mundo a partir do ano 3114 a. C. no calendário cristão, sendo que um ciclo total se encerraria 5126 anos depois da era inicial. A diferença dá exatamente 2012! O fato é que os maias não falaram nada do que viria depois, isto porque já o sabiam: tudo se repetiria.
 
Eles foram uma civilização extraordinária, misteriosa e complexa que encanta quem a estuda e conhece. Viveram nas regiões da América Central e Caribe, na península do Yucatán no México, em regiões da Guatemala, Belize, Honduras e El Salvador. Desenvolveram a civilização entre 2000 a. C. e 1519 d. C. (data da chegada dos espanhóis na América), possuem cerca de 3.500 anos de história!
 
No século VIII d. C. deu-se o apogeu da sua civilização com a construção de cidades-estado independentes, algumas com cerca de 100 mil habitantes, maiores que as europeias e talvez as maiores do mundo na época. Criaram sistemas urbanos de transportes, redes hidráulicas de captação da água da chuva, a prática de esportes, noções de higiene pública, a ciência da matemática e a escrita sofisticada. Era uma sociedade hierarquizada e dividida em camadas sociais voltadas para funções específicas como a administração pública, a produção e a distribuição de alimentos, a arte e a religião.
 
Junto com a escrita, os maias elaboraram um calendário completo a partir da observação dos astros que determinava a totalidade da vida social. Dois calendários interligados, o Lunar (de 260 dias) e o Cívico (de 18 meses de 20 dias, ou 360 dias), formavam a “Roda Calendárica”. Todas as atividades sociais, políticas, agrárias e religiosas eram definidas por este sistema de datação. O cotidiano e os acontecimentos estavam todos dentro de um possível equilíbrio cósmico a ser alcançado por meio dos sacrifícios às divindades.
 
A história registra, no entanto, o “fim do mundo” maia que se deu com a chegada dos espanhóis, num momento coincidente com a sua decadência civilizacional no séc. XVI. Profecias falavam da chegada de invasores que os dominariam, e, de fato, os espanhóis engendraram um domínio desumano, tal como aconteceu com as nações indígenas brasileiras com a invasão portuguesa. No entanto, os restos e os vestígios materiais, bem como os descendentes destes povos ainda vivem, resistindo há séculos ao processo de aculturação.
 
Existiram mundos que acabaram, mas que não deveriam acabar, enquanto outros não acabaram, mas deveriam. Assim é a história humana na sua ambiguidade e na sua contradição descritas no Apocalipse. Por um lado, a “Babilônia” com seu sistema iníquo e decaído, por outro, a “nova Jerusalém” com sua utopia de justiça e de amor. A narrativa de João afirma a hegemonia da primeira cidade (ordem) na maior parte do tempo, mas a resistência da segunda irromperá sem data previamente marcada, pois nem o Filho, que é o seu Senhor e Rei, sabe.
 
Agostinho se enganou ao tentar conciliar duas cidades, a divina e a humana: a ordem divina absorvendo a ordem humana ou uma ordem humana se impondo misticamente como divina. Tal foi o projeto da igreja romana medieval/moderna que legitimou o genocídio dos maias pelos espanhóis.
 
Aguardamos novos céus e nova terra. Maranata!
 
Fonte:
NAVARRO, Alexandre Guida. “A civilização maia: contextualização historiográfica e arqueológica”. In: Revista HISTÓRIA, São Paulo, 27 (1): 2008.
 

Temos um sonho

Esse artigo nasceu de um sonho que tínhamos ao escrevermos nossos textos para “O Livro do Som do Céu” (Editora Palavra, 2009): vermos os templos cristãos brasileiros sendo utilizados para promoção e divulgação das artes. Eu e os músicos Jorge Camargo e Romero Fonseca (da banda Expresso Luz) – com eles divido a autoria do artigo – não confabulamos previamente sobre esse desejo, nem discutimos em conjunto o que estaríamos escrevendo, mas em nossos capítulos se encontraram frases como: “Sonhei uma igreja. […] Além dos cursos profissionalizantes, do atendimento aos necessitados, das parcerias com a prefeitura, o Estado, o Governo Federal e a iniciativa privada, a igreja também possui um intenso calendário cultural que, diferente de outras que utilizam somente as datas cristãs para promover seus musicais, abre o espaço de seu imenso palco a uma programação intensa que contempla todos os estilos de música” (Jorge Camargo, p. 136). “A Igreja deve ser um catalisador cultural, aproveitando seus espaços físicos – na maioria das vezes bem localizados nos bairros da cidade e ociosos em boa parte do tempo – para criar locais permanentes de fomentação cultural” (Romero Fonseca, p. 106). “Em primeiro lugar, proponho que a Igreja evangélica brasileira transforme os templos, durante a semana, em centros culturais, onde haja escolas de música e outras artes, apresentações artísticas e um espaço de debate e oficinas a respeito de questões do cotidiano social-político-econômico da comunidade local” (Sérgio Pereira, p. 130). Algumas semanas atrás uma notícia do jornal “O Globo” mostrou que esse sonho não estava tão distante. O evento “Terça de Graça” é organizado pelo músico Fernando Merlino e pela Comunidade Presbiteriana Libertas. Já foram 100 shows, com gente como Wanda Sá, Tunai e Roberto Menescal (veja cartaz abaixo). Muitas foram as críticas após a publicação de uma reportagem do “Terça de Graça”. Uma delas questionou o uso do púlpito de uma igreja para fins políticos e artísticos. Concordamos plenamente que o espaço do culto não deva ser usado para propaganda político-partidária. O púlpito, particularmente no espaço do culto, deve ser usado para fins espirituais. No entanto, não devemos perder de vista o caráter horizontal de ser Igreja. Sua vocação é sim vertical como lugar de fé, oferenda de amor e compromisso com Deus. No entanto, a vida em sua dimensão horizontal é igualmente sagrada. Esse pensamento é um dos maiores legados da mensagem cristã. Daí pensarmos que o espaço do templo é sim espaço de expressão de valores e de conteúdos humanos: política, no sentido mais amplo da palavra, e serviço ao próximo e a tudo que promova e gere vida. E arte. Aliás, na história, arte e espiritualidade nunca estiveram dissociadas. Por isso, continuamos sonhando, assim como escrevemos no “O Livro do Som do Céu”. E o exemplo do “Terça de Graça” reforça ainda mais esse sonho. Nota: Este artigo teve a colaboração de Jorge Camargo (mestre em ciências da religião, intérprete, compositor, músico, poeta e tradutor) e Romero Fonseca (músico e compositor, atuante no grupo Expresso Luz e Essência)