A CURA DA AFETIVIDADE

Por: Emmir Nogueira (Co-fundadora da Comunidade Católica Shalom)

Começaremos hoje falando sobre afetividade. Ontem nós vimos que o homem é um ser necessitado e por isso se abre para a graça de Deus, o homem que não se conhece, que não se reconhece como ser necessitado, vive na mentira. Nossa humanidade tem limites, nós não viveremos para sempre, nós não somos deuses e por isso é crucial que reconheçamos que somos limitados e precisamos de Deus.
Ser homem ou mulher é um presente de Deus. É presente de Deus termos uma sexualidade, e por isso trazemos em si uma vontade de Deus e fazer vontade de Deus, precisamos ser plenos na realização da vontade de Deus. A afetividade traz este nome porque ela afeta tudo. Afetividade é a maneira de nos relacionarmos com o que esta dentro de nós e com o que esta fora de nós.
Os nossos relacionamentos com a família, com os amigos, com as roupas, com aquilo que esta ao nosso redor, tudo isso afeta a nossa afetividade. As vezes não entendemos bem e pensamos que a sexualidade esta na afetividade, não! A afetividade afeta a sexualidade, pois problemas na afetividade afetam nossa identidade.
Quais são as gavetas da nossa afetividade? A gaveta mais baixa da nossa afetividade é o humor, humor como estado de espírito. O humor é considerado o estado de base da afetividade. Muitos de nós mudamos de estado de humor muitas vezes durante um dia, infelizmente isso acontece, e acontece porque temos problemas em nossa afetividade.
Há pessoas que sempre estão de bom humor, sempre sorriem, sempre promovem a unidade, onde elas chegam alegram o ambiente, mas também tem gente que está sempre de mau humor e estas pessoas são aquelas negativas, insuportáveis, onde elas chegam o ambiente fica pesado, esta pessoa precisa crescer em sua afetividade.
Há pessoas que andam de cara feia , estas são as pessoas que desejam dizer: “me olhem, me vejam, eu não estou bem”, cara feia é um grito de socorro. A segunda gaveta é a da emoção, a emoção é um fenômeno passageiro, algo acontece que afeta a pessoa naquele momento, seja ouvindo uma música, seja vendo um fato acontecer. A emoção vem e vai e as vezes nem nos lembramos dela e isso significa que nenhuma decisão da minha vida deve ser tomada de acordo com meu humor ou com minhas emoções.
Nunca peça para ninguém fazer um trabalho muito difícil quando a pessoa estiver cansada, pois o humor de base desta pessoa não esta preparado. Tudo isso nos ajuda a nos relacionarmos com as pessoas, por isso é preciso que percebamos o humor e as emoções das pessoas. Se você esta com uma enxaqueca e uma pessoa te pede para resolver um problema você poderá responder a esse pedido de forma negativa.
Eu não posso dizer que meu humor e minhas emoções são bons ou ruins, pois são uma característica da minha identidade, mas eu posso controlá-los, o que faço com meu humor e com minhas emoções depende do meu amor a Deus, do meu amor a mim e ao meu irmão. É preciso em um momento de humor e emoções abaladas responder às pessoas de maneira evangélica e Deus nos dá a graça de fazer isso. Você não foi feito para reagir segundo seu humor e suas emoções, mas segundo a caridade.
A terceira gaveta é a dos sentimentos e eles estão sempre ligados aos valores. Por exemplo, o valor da justiça, da verdade, da pureza, os sentimentos estão ligados a estes valores, o contra valor da desonestidade os sentimentos estão ligados também aos contra valores. Nós reagimos segundo os sentimentos que estão ligados a determinados valores.

“O humor é considerado o estado de base da afetividade”, diz Emmir Nogueira
Algumas pessoas foram educadas a fugir e quando estiverem de cabeça cheia irão fugir, pois o sentimento delas está ligado ao valor da fuga, por isso é importante a educação dos valores, em uma comunidade é importante que os valores estejam claros, pois os sentimentos estarão ligados a estes valores. A quarta gaveta é a do afeto, assim como os sentimentos se ligam aos valores, os afetos se ligam a idéias. Se você fechar os olhos e eu dizer palavras como beber, pai, terrorismo, Jesus, cada uma destas palavras lhe despertarão afetos diferentes, os afetos estão ligados a um conceito, a uma idéia.
Entre duas pessoas as mesmas palavras terão relações afetivas diferentes, por isso nossas famílias, a sociedade, a comunidade, precisam ter valores e conceitos claros, valores e conceitos evangélicos. Em julho de 2010 teremos a copa e como estará as emoções, o humor, os afetos do brasileiro? Tudo isso estará aberto para receber qualquer idéia, mesmo sendo má, que se apresente, e por isso muita gente que sabe disso se aproveita desta situação, usam os meios de comunicação para nos passarem idéias que até vão contra nossos valores e nós aceitamos facilmente se não estivermos atentos.
A última gaveta é a das paixões, ela também não é boa e nem má, o que é bom ou mau é o que fazemos com elas. Einstein passava tantas horas estudando que a sua esposa brigava com ele, mas essa sua paixão nos trouxe boas descobertas. As paixões são como uma bigorna, a gaveta das paixões é a mais alta do armário, a gaveta da identidade é a que segura toda a estrutura deste armário de gavetas e a gaveta das paixões com essa bigorna se torna pesada e pode fazer desmoronar todo o armário, pois esta sobre todas as outras gavetas.
As paixões devem nos levar as virtudes, devo ser apaixonado pelo Evangelho e viver bem esta paixão. As paixões influenciam nosso humor, nossas emoções, nossa afetividade, influenciam tudo. Os estudiosos dizem que as paixões tem o poder de nos levar para o bem e para o mal. Deus me criou e me deu a graça do batismo e me criou homem ou mulher e nisto Ele demonstra sua vontade sobre minha sexualidade. Deus me criou para um carisma, para um estado de vida específico e isso para mim, porque é vontade de Deus deve se tornar um valor. Eu ser batizado como filho de Deus, por exemplo, deve ser um valor.
Os meus sentimentos estão ligados a estes valores que são vontade de Deus para mim e quando vivo isso começo a querer conhecer melhor a vontade de Deus para minha vida e começo a buscar a vontade de Deus e meus afetos se ligam aos conceitos expressos pela vontade de Deus.
Como meus afetos estão ligados da filiação divina e tudo que ela representa para mim, o meu ser inteiro se envolve e se deixa envolver e se apaixona pela vontade de Deus, o que acontece então é uma reestruturação dos conceitos para mim, não ajo mais como a carne pede e me impulsiona, mas como aquilo que é vontade de Deus.

“A cura interior não é para me ajudar a me centralizar sobre mim”, diz Emmir

O cristão que é cristão de verdade percebe que é um apaixonado pelo martírio, ele nasceu para morrer de amor, então não vive reclamando do que lhe acontece de ruim. Quando eu me deixo mover por uma destas áreas da minha identidade, quando uma se sobrepõe sobre as outras eu começo a me curvar sobre mim mesmo, o que interessa é o meu umbigo, busco somente aquilo que eu quero ser ou ter e deixo as vontade de Deus de lado.
Se eu viver sobre meus afetos, meus sentimentos, minhas emoções, meu humor, eu viverei só para mim. Se minha identidade é uma confusão, e minha afetividade esta de cabeça para baixo, eu serei uma pessoa débil em minha auto-identidade. A cura interior não é para me ajudar a me centralizar sobre mim, é para me ajudar a ficar de pé, enxergando a verdade, Deus nos cura para que sejamos santos. Cura interior é Jesus dizendo: “Levanta-te e anda, eu quero ajeitar tua afetividade que está de cabeça para baixo, eu quero te libertar de ti mesmo, eu te criei para que você tenha controle de suas emoções, seus afetos e suas emoções, eu não te criei para sua identidade ser amarrada e escravizada, não te criei para ser levado por teus sentimentos, mas para ter o domínio sobre eles e sobre suas paixões.”
Uma vez perguntei a um Bispo, porque é que Jesus curou aquele paralítico que os amigos trouxeram em uma padiola e mesmo o homem curado, andando, Jesus pede para que ele leve a sua padiola para casa e o Bispo me respondeu: “Eu também já pensei sobre isso e cheguei a conclusão que Jesus mandou que ele levasse a maca para casa porque Jesus fez a sua parte, mas é preciso que a pessoa faça um caminho de santificação a partir da sua fraqueza, dos seus limites para alcançar a sua santificação.”Quando baixamos a guarda da afetividade, nos tornamos escravos e paralíticos dela!
Vou falar um pouco também sobre co-dependência afetiva, e o que é isso? É uma armadilha que nos faz depender de forma errada de uma outra pessoa. Há pessoas que vivem assim, e quando determinada pessoa não esta na festa, na igreja, enfim no mesmo lugar que ela, acaba ficando triste, ou não tem opinião própria, gosta das coisas que a outra pessoa gosta, a pessoa se torna o centro da vida da outra. É o famoso grude! E o que isso provoca? O fim da minha vida acaba não sendo Deus, as energias da minha vida, dos meus afetos, dos meus sentimentos, não vão para Deus mas vão para aquela pessoa, isso acontece entre amigos, mas também acontece entre casais.
A co-dependência afetiva dentro de uma comunidade é a maior traição a Deus que o demônio consegue fazer, porque você doou sua vida a Jesus, mas agora está dependendo de uma outra pessoa para ser feliz. Ninguém depende de outra pessoa para ser feliz! Para ser feliz eu preciso ser dependente de Deus, para ser feliz eu preciso dar-me a todos os meus irmãos, mas não me deixar escravizar afetivamente por eles.
A amizade é um dom de Deus, quando autentica é libertadora e não faz uma pessoa depender da outra, pelo contrário leva as duas pessoas a dependerem de Deus e quanto mais elas dependem de Deus mais elas são livres, mais elas são curadas. Algumas das características da co-dependência, uma delas é quando os outros precisam tomar decisões importantes que caberiam a mim tomar. Há pessoas que saem de uma comunidade, que acabam com a família por conta desta co-dependência afetiva.
Outra característica da co-dependência afetiva é que a pessoa precisa de constante reafirmação de outras pessoas. A pessoa precisa de elogios, é uma pobre coitada dependente da opinião dos outros, como esta pessoa viverá o Evangelho se ela é dependente do outro? Mais uma característica é se alguém não se mostra alegre comigo eu já acho que aquela pessoa não gosta de mim. As vezes acontece de você ficar esperando que as pessoas te notem, mesmo quando aquelas pessoas estão atarefadas e não podem te dar a atenção que você deseja. Você não pode ser dependente ao ponto de ser feliz somente se aquela pessoa te der um sorriso ou falar com você.
Jesus foi cuspido, maltratado, injuriado, crucificado e em nenhum momento ficou buscando a consolação das pessoas. Outra característica terrível e quando a pessoa nunca diz não, pois tem medo de que as pessoas não gostem dela, uma co-dependência afetiva nos desvia de Deus e nos faz usar o outro para nos sentirmos amados.
Certa vez atendi um casal que tinha perdido um filho e pediram que eu rezasse por eles, conversando com eles descobri que o rapaz era co-dependente da mãe, em tudo a mãe tinha que dizer a ele o que fazer, como fazer, e ele era um rapaz altamente qualificado, mas não conseguia ir bem, já tinha perdido vários empregos. Acompanhando este casal, o rapaz mesmo se deu conta de que ele devia mudar de cidade, ir para longe de sua mãe, pois em tudo ele ainda, mesmo casado, dependia da mãe. Mudaram-se e hoje este casal vive bem e estão grávidos de um terceiro filho.
Eu dizia para Jesus um dia destes:“Jesus tu morreu por nós, tu destes a nós o batismo e porque o Senhor deixa em nós o desejo do poder, do prazer, porque o Senhor nos deixa ter estas concupiscências, porque?”, e quando saiu o Catecismo eu entendi, foi para que nós provássemos o nosso amor que ainda trazemos em nós as concupiscências. Quando provamos o amor pelo irmão? Quando ele precisa! O amor se prova em ações! Quando concretamente luto contra minhas tendências e limites para fazer a vontade de Deus é que provo que de fato eu O amo.
Existem pessoas que vêem uma liquidação e logo correm para comprar algo, elas tem muitos sapatos, mas sempre estão comprando mais, este desejo exacerbado de possuir as coisas as destrói. Como esta pessoa vai vencer esta mania de ter? Ela vai transformar esta mania de ter em uma escada para o céu. Devemos matar a vontade desenfreada de comprar e provar que amo a Jesus, a gente prova o amor a Jesus no que é fácil e no que é difícil, quanto mais difícil for subir os degraus da escada que nos leva ao céu, mais provaremos o amor a Jesus.
Há aquelas que se cuidam por uma beleza exterior exagerada e trazem raiva de pessoas dentro de si, porque acha que deve ser melhor que as outras. Não é fácil conviver com pessoas assim! Se esta pessoa se esvazia de si e resolve amar aqueles a quem ela trazia um sentimento de raiva, ela precisa se determinar em amar as pessoas, ela precisa usar o horror das pessoas, a inveja, o ciume que ela tem dos outros e transformá-lo em virtude.
Mas se esta pessoa tentar transformar todas os seus limites em virtudes sozinha, ela não conseguirá, pois a escada de santidade não se sobe com as próprias forças, é impossível transformar vícios em virtude sem a graça de Deus. Esta pessoa se deparando com o desejo de amar, de perdoar, mas querendo fazer com suas próprias forças, precisa reconhecer que não conseguirá e deve clamar a Deus por sua graça. Ninguém é capaz de fazer mal algum a nós, a não ser nós mesmos.

“Ninguém é capaz de fazer mal algum a nós, a não ser nós mesmos”, diz Emmir

É preciso de uma vida de santidade e a santidade vem pela decisão da minha vontade, Deus me dá toda a graça atual que eu necessite para ser santo. São João da Cruz diz: “A porta estreita é Jesus, entrar pela porta estreita muitos entram quando se decidem por Jesus, mas depois da porta estreita existe o caminho estreito”. O caminho estreito pode significar provação, noite escura, noite do espírito, mas amar Jesus significa estar disposto a passar pela porta estreita que é o próprio Jesus e ir até a cruz e ressuscitar. O segredo da santidade, a verdadeira cura interior acontece quando por amor a Jesus eu me decido superar tudo, os traumas me atrapalharão, nossa identidade confusa vai nos atrapalhar, mas porque eu me decido por Jesus, eu alcanço a santidade.
São João da Cruz fala das faculdades, em especial duas, o entendimento e a memória, e ele diz que somos livres e preciso contar sempre com a luz do Espírito e a luz da minha inteligência para ter domínio sobre minhas vontades, eu preciso recorrer a graça de Jesus para orientar o meu ser inteiro para a vontade de Deus. A afetividade é um dom e todo santo é curado no seu interior, mas o pecado é que deixa nossa afetividade biruta.
É muito fácil e muito pagão eu jogar a culpa do meu sofrimento sobre o outro, ninguém tem o poder de te fazer sofrer, só você pode fazer isso acontecer. Quando você vai se conhecendo melhor, suas fraquezas, seus limites, quando você vai dizendo não para suas vontades e sim para a vontade de Deus, principalmente quando isso te faz sofrer e dói muito, sua afetividade vai sendo ordenada para amor. A conseqüência é que a vontade de Deus, a sua verdadeira identidade, aquilo que Deus pensa sobre você vai se tornando real e você não mais terá conflitos.
A medida que sua afetividade se volta para Deus também sua identidade se volta para Deus. Quando eu começo a ficar livre do que me dá prazer, me torno um filho de Deus equilibrado, sem conflitos, forte, me torno santo porque a minha vontade se une a vontade de Deus. Através da escada que subo por amor a Deus o meu amor se une ao amor de Deus. E diz São João da Cruz: “Deus e eu somos um!”, Deus cumpre o seu desígnio de me santificar, de submeter-me à sua vontade, de fazer-me um homem santo como Ele me criou.
Fonte: http://www.cancaonova.com.br

PÃO VIVO

«Eis o pão que os anjos comem transformado em pão do homem; só os filhos o consomem» (Sequência da festa)

Deus todo-poderoso e eterno, eis que me aproximo do sacramento do Teu Filho único, Nosso Senhor Jesus Cristo. Doente, venho ao médico de Quem a minha vida depende; manchado, à origem da misericórdia; cego, ao fogo da luz eterna; pobre e desprovido de tudo, ao Senhor do céu e da terra.

Imploro, pois, a Tua generosidade imensa e inesgotável a fim de que Te dignes curar as minhas enfermidades, lavar as minhas manchas, iluminar a minha cegueira, compensar a minha indigência, cobrir a minha nudez; e que assim possa receber o pão dos anjos (Sl 77, 25), o Reis dos reis, o Senhor dos senhores (1Tim 6, 15), com todo o respeito e humildade, toda a contrição e devoção, toda a pureza e fé, toda a determinação de propósitos e a rectidão de intenção que a salvação da minha alma exige.

Permite, peço-Te, que não receba simplesmente o sacramento do Corpo e Sangue do Senhor, mas toda a força e eficácia do sacramento. Deus cheio de doçura, permite-me receber de tal maneira o Corpo do Teu Filho único, Nosso Senhor Jesus Cristo, este corpo material que Ele recebeu da Virgem Maria, que mereça ser incorporado no Seu Corpo místico e fazer parte dos seus membros.

Pai cheio de amor, permite que eu possa um dia contemplar de rosto descoberto e por toda a eternidade este Filho bem amado que me preparo para receber agora sob o véu que convém à minha condição de viajante. Ele que, sendo Deus, vive e reina Contigo na unidade do Espírito Santo pelos séculos e séculos. Amen.

A CRIANÇA NA MISSÃO DE DEUS

Apenas três versículos nos falam de uma menina — a empregada da esposa de Naamã (2Rs 5.1-3). Uma menina cujo nome não sabemos, mas cujo exemplo muito nos ensina. Como não era chamada de jovem, provavelmente tinha menos de doze anos; era “apenas” uma criança.

Como essa menina poderia ser útil à esposa do comandante do exército do rei da Síria? Ela parecia muito próxima da dona da casa, pois conversava com ela. Supomos que se ocupava com o atendimento pessoal da senhora, arrumando sua roupa, escovando seu cabelo, cuidando de suas unhas e mãos. Era próxima o suficiente para perceber a tristeza e a preocupação daquela mulher com a terrível doença do marido.

Como teria sido para a nossa garotinha ser violentamente arrancada de sua casa e de sua terra e arrastada para um país estrangeiro? Como teria sido para uma menina de uns 9 anos ficar longe dos pais de repente? Ou, quem sabe, guardar no coração a dor de seus gritos quando foram mortos pelos invasores? Será que ela guardava rancor, mágoa, desejo de vingança?

Tudo indica que não. Com a simples frase “se o meu senhor procurasse o profeta que está em Samaria, ele o curaria da lepra”, ela mostra um coração puro, incrivelmente vazio de amargura, hostilidade ou ódio.

Também nos surpreende o “insight” dessa menina, seu discernimento em perceber a tristeza da senhora e a crença pessoal de que um profeta de Israel poderia ajudar. Ela mostra uma confiança absoluta em Deus. Mesmo numa cultura adversa, em que a religião falava de outros deuses, e não do único e verdadeiro Deus, ela guardava no coração tudo o que tinha aprendido sobre o Senhor da aliança.

A nossa menina não fez seminário nem curso de missões, mas aqui está ela fazendo missões! Ela serve a uma senhora, mas acima de tudo ao Rei dos reis, cumprindo o propósito que sempre foi explícito para o seu povo — fazer o nome de Deus conhecido por todos os povos.

Dessa história podemos tirar algumas lições:

1. Devemos aprender com as crianças: “A criança pode nos ajudar a resgatar e preservar virtudes dadas por Deus que ainda estão presentes nela, como a capacidade do perdão, o amor sincero, a amizade fácil, a espontaneidade, a dependência e a humildade”.1

2. As crianças têm lugar na missão de Deus: “Na história das missões, outras visões moldaram, de forma inconsciente, a vida e a proclamação do reino de Deus. De certo modo, poder e status foram mais valorizados do que o dom do amor e do servir”.2 O que essa história nos mostra é exatamente isso — na missão, o amar e o servir levam à salvação.

3. É importante ensinar as crianças sobre Deus, instruí-las em suas leis, ajudando-as a entender o seu amor não somente por suas famílias, mas também por todas as famílias da terra.

4. Não devemos desprezar a capacidade das crianças de levar outros à fé e à salvação. Devemos dar-lhes oportunidade para falar, testemunhar e até pregar. Por isso devemos orar por elas e com elas, reconhecendo o seu papel no reino dos céus.
Deus já fez um compromisso de ensinar as crianças: “Todos me conhecerão, ‘desde o menor’ até o maior” (Jr 31.33-34). E nós? Seremos seus cooperadores?

• Jan Greenwood é coordenadora de pessoal da Interserve Brasil-CEM (Centro Evangélico de Missões), em Viçosa, MG.

SÓ O EVANGELHO REALIZA RECONCILIAÇÕES

“Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo…” 2 Co 5.19

Este foi o verso bíblico exposto em inúmeros banners, nas mais diversas línguas, pelos corredores do megaespaço do centro de conferência na Cidade do Cabo, África do Sul, na conferência de Lausanne 3. Traduzir o que foi o congresso, ou melhor, o movimento Lausanne naqueles dias, não é uma tarefa fácil nem rápida, requer tempo e reflexão para assimilarmos os múltiplos temas e assuntos que atravessaram as plenárias e as diversas exposições divididas entre palestras, testemunhos, vídeos, danças, músicas, poemas, teatro e orações, além das discussões muito ricas nas mesas de debate.

Obviamente o tema principal do congresso girava em torno da evangelização do mundo, mas aquilo que nos parecia a princípio tão óbvio se desdobrou numa complexidade de formas e ideias tão diversas quanto o número de países e línguas ali representados. Contudo, a direção dada através do estudo do livro de Efésios conduziu, num certo tom espiritualista, uma reflexão acerca de um evangelho estritamente cristocêntrico e das manifestações e atuação que esse evangelho causa na vida humana como um todo. O evangelho é, então, dimensionado como a figura do próprio “mistério”, nas palavras do apóstolo Paulo, e dimensionado na própria imagem de Cristo, naquele ao qual ainda não temos acesso como um todo, mas do qual podemos vivenciar e situar suas manifestações e benevolências em nossas vidas através de sua graça.

Então, dentre os aspectos tratados acerca do evangelho, como a integridade da igreja, a transformação do mundo e dos valores humanos, a reconciliação foi, a partir do meu olhar de psicólogo, o tema que provocou a maior reflexão e comoção no auditório, por meio de testemunhos impactantes sobre o desafio da reconciliação entre histórias, povos e pessoas ao redor do mundo. Embora em nosso contexto social e histórico não tenhamos questões tão relevantes para pensarmos a reconciliação numa esfera social, por exemplo, como entre países em constantes conflitos no Oriente Médio, o tema nos afeta tão diretamente quanto a qualquer povo ou nação do mundo. Desta forma, um dos testemunhos mais comoventes em Lausanne 3 foi o encontro entre uma moça palestina e um rapaz judeu. Ambos, agora convertidos, testemunham e vivenciam como evangelho de Cristo uma reconciliação que ultrapassa as barreiras sociopolíticas dos seus povos; ambos testemunham de um evangelho que reconcilia os sentimentos mais internos de rejeição e ódio que aprenderam a cultivar e nutrir dentro de si mesmos em relação um ao outro. Um sentimento, antes de ser aprendido e manifesto como cultura social em uma nação, é originado e mantido na identidade e no caráter de uma pessoa. Isso, para mim, foi o ponto nevrálgico da reflexão sobre uma das dimensões e atuação do evangelho de Cristo em nós; somos por natureza filhos da ira, irreconciliáveis conosco mesmo, passíveis de nutrir e sustentar uma inimizade com aqueles que nos rodeiam. Por isso o evangelho de Cristo que transforma o mundo inicia-se no interior de uma subjetividade, reconcilia a estrutura psíquica de uma pessoa atravessada e povoada por inúmeros sentimentos contraditórios e perversos com o sentimento de amor proveniente do próprio caráter de Deus.

O evangelho de Cristo reconcilia histórias pessoais, reconcilia pai com filho, esposa com esposo, reconcilia famílias, cidades, reconcilia sentimentos históricos que separam e trazem inimizades entre nações e continentes. Em um encontro ocorrido, inusitadamente, entre africanos e brasileiros, movido por uma carta de pedido de perdão pela história da escravidão no Brasil, uma mulher de um país africano representando todas as mães africanas que tiveram seus filhos e esposos capturados e levados pelo mercado de escravos, expressou o sentimento de dor e angústia daquelas mulheres por uma prática tão desumana e perversa. De imediato, todos nós naquele momento pudemos vivenciar aquele sentimento de dor e desespero daquelas mulheres que se transmitia e perpetuava através da cultura e sociedade africana. A proferição de perdão através daquela mulher comoveu todos os presentes naquele lugar; entre muitas lágrimas, todos se aglomeraram e se entrelaçaram num grande grupo, e, num coro de oração, clamavam a Deus por uma graça especial, por uma reconciliação, paz, sobre aquele sentimento compartilhado.

Isso não tem dimensão, trata-se do puro mistério de Deus para nós; para isso não temos como planejar, pensar ou manipular o evangelho de Cristo. O evangelho é para ser vivido, praticado, rotinizado em nossa conduta diária. Mais do que isso, o evangelho de Cristo promove o fazer as pazes conosco mesmo, a nos perdoar e, consequentemente, fazer o mesmo com aquele que nos rodeia. O evangelho de Cristo confronta os sentimentos indesejáveis e mais profundos da nossa natureza e, concomitantemente, todas as questões que atravessam a humanidade, como a pobreza, a orfandade, entre muitos outros. Pois, no fechamento dos tempos, todas as coisas, todos os sentimentos, todas as relações, todos os povos serão reconciliados, convertidos e convergidos em Deus, por intermédio de Cristo, tanto no tempo futuro quanto na temporalidade de uma vida pessoal.

João Marcos Cardoso De Sousa É psicólogo e membro da 8ª Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte. É casado com Rosa e pai de três filhos. Além de manter seu consultório de atendimento, João Marcos presta assistência a missionários ligados a diversas agências

DEFEITOS E QUALIDADES

a) Para ler: João 1, 45 – 48 e Provérbios 4, 10 – 27

b) Para conversar
1. Porque há coisas que você acha fácil de fazer e as outras pessoas acham difícil?

2. O que você faz com facilidade e o que faz com dificuldade?

3. É possível aprender a fazer bem o que achamos difícil?

c) Para saber
Todos nós nascemos com determinado temperamento, também conhecido como “gênio” e caráter. Uns são mais abertos, outros mais fechados, uns mais nervosos, outros mais pacíficos, uns mais apaixonados, outros mais frios etc.

Esses temperamentos trazem muitas características boas, mas também muitas imperfeições, que podem ser notadas já desde que somos crianças. Cabe aos pais e educadores ajudar as crianças e jovens a vencerem os defeitos de seus temperamentos e transformá-los em virtudes. Quando nem os pais e nem os educadores conseguiram essa façanha, cabe a nós mesmo nos trasnformar, corrigindo os defeitos de nosso temperamento e adquirindo as qualidades que não temos.

A pessoa que corrige seus defeitos, que procura adquirir as qualidades que não possui de nascença, torna-se o que chamamos de “pessoas de bom caráter”. Caso contrário, chamamos de “pessoas de mal caráter”. Por exemplo se você nasceu com o temperamento tipo São Pedro, nervoso, que age antes de pensar, deve tentar tornar-se mais paciente, mais cauteloso. Feito isso, terá adquirido um bom caráter. Outro exemplo: uma pessoa tímida por natureza, que conseguir libertar-se e tornar-se mais extrovertida, mais aberta, adquiriu um bom caráter.

Os santos que conhecemos conseguiram fazer justamente isso: transformaram os pecados e defeitos de seus pensamentos em santidade e virtudes de um bom caráter.

d) Para viver
Procure conhecer quais são as suas boas e más tendências. Depois, anote tudo o que você precisa para ser melhor: deixar os vícios, as manias, e muitas vezes o individualismo, para se transformar-se numa pessoas de bom caráter.

As renúncias e os sacrifícios feitos voluntariamente ajudam-nos a formar (e forjar) o nosso caráter. Exemplo: dormir sempre numa mesma hora, não muito tardia, não ficar muito tempo dormindo, procurar trabalhar sempre, aproveitar bem o tempo de estudo, ser humilde e aceitar as críticas que nos fazem, ser equilibrado na comida e na bedida, não ser “baderneiro”, respeitar as pessoas, sejam elas mais velhas ou mais novas, respeitar a natureza, não destruindo nada, obedecer aos pais e superiores, manter uma vida de oração, procurar ser sempre amigo, curtir boas amizades etc.

e) Para fazer
Tente ver em que você é diferente de seus amigos. Tente descobrir em que eles já melhoraram em relação ao que eram quando crianças.

f) Para rezar
Senhor Deus,/ que tanto nos quereis bem,/ ajudai-nos a transformar nossas vidas,/ a fim de que construamos um bom caráter,/ a partir das armas do amor, da renúncia e da oração que vós nos concedeis./ Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

FAZENDO AMIGOS

a) Para ler: Eclesiástico 6, 14 – 17
Um amigo bom e fiel vale mais que um tesouro

b) Para conversar
1. Você tem amigos(as)? Muitos ou poucos?

2. O que você acha mais importante numa amizade?

3. Quais são os defeitos que seus amigos(as) observam em sua pessoa? Você concorda ou discorda deles?

c) Para saber
Em Pr 18, 24b, lemos: “Há amigos mais queridos do que um irmão”.

Isso quer dizer que há irmãos que não são amigos! A amizade não acontece ao acaso. Para que duas pessoas sejam amigas, é preciso várias coisas:

– devem conhecer-se bem;

– uma deve respeitar a outra em seus próprios limites e capacidades, em seu modo de vida;

– sinceridade e honestidade em todas as ocasiões;

– devem ajudar-se mutuamente no crescimento pessoal, ou seja, estarem sempre à disposição para os desabafos e os problemas. Se for preciso, devem aconselhar-se nas dificuldades e nos defeitos que uma encontra na outra;

– não podem desprezar ou fazer pouco caso das demais pessoas que não partilham a mesma amizade;

– não devem aproveitar-se uma da outra.

Isso tudo também se aplica à amizade entre pais e filhos, esposo e esposa, irmão e irmã, colegas de trabalho etc.

Sem um entrosamento num círculo bem amplo de amizades, ninguém consegue crescer no amor e na partilha, não progride muito na vida.

d) Para viver
A verdadeira amizade leva até Deus e à prática do Evangelho. Assim sendo, aquela que leve ao pecado, ao vício, ao crime não é verdadeira amizade.

Quem vive sem amigos, isolado, acaba ficando triste, solitário, egoísta, angustiado, pão-duro, só pensa em si mesmo, vive com medo de tudo e de todos, vive inseguro, torna-se antipático.

A amizade verdadeira traz muita alegria às pessoas e confiança na vida. Quem tem verdadeiros amigos e tem também Jesus por amigo vence com facilidade os problemas da vida. Jesus é um amigo que nunca vai nos “deixar na mão”.

e) Para fazer
Escreva num papel os nomes das pessoas de sua família, de sua classe, de sua rua, que ainda não são seus amigos, e faça um plano para que passem a ser.

f) Para rezar
Senhor Jesus Cristo,/que fizeste tantos amigos em vossa vida aqui na Terra,/ajudai-nos a ter amigos/ que nos auxiliem a melhor amar-vos./ Vós, que sois Deus com o Pai,/ na unidade do Espírito Santo. Amém.

O AMOR NO ESPELHO

Certa vez os fariseus questionaram Jesus sobre qual seria o grande mandamento da Lei (Mt 22.36-40). Respondendo, Ele afirma que toda a Lei e os profetas dependiam de duas ordenanças: “Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento” e “ame o seu próximo como a si mesmo”. Jesus é perguntado sobre o grande mandamento da Lei, e responde que não há um, mas dois. Mas ambos são equivalentes, pois o segundo é introduzido com a qualificação de “ser semelhante ao primeiro”, e todas as 365 proibições e 248 obrigações são-lhes subordinadas. Há uma sugestão de interdependência entre ambos, como se fosse as faces de uma mesma moeda.

Ainda assim, há uma sutil hierarquia, pois o amar a Deus vem em primeiro. Talvez porque não dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, nem duas palavras podem ser pronunciadas simultaneamente pela mesma pessoa. Mas provavelmente para definir o termo “amor” Jesus escolheu esta ordem, pois, do contrário, qual seria o significado do termo?

Deus, a quem não se vê, deve ser amado completamente, em todas as esferas da existência humana: racionalidade, sentimentos e espiritualidade. E nos dois textos paralelos é acrescido “com toda a sua força” (Mc 12.28-34 e Lc 10:25-28). A definição deste amor condiciona o mandamento similar.

O próximo, a quem se vê, com quem se interage deve ser amado de uma única maneira: como a si mesmo. Mas como é amar ao próximo como a si mesmo?

Amar a Deus implica no uso da razão, e não apenas da emoção. Não é um sentimento isolado, mas um fator que une as esferas possíveis da existência humana. E Jesus não anula, na conversa, os 613 mandamentos contabilizados pelos fariseus. Amar, portanto, implica em atitudes; para com Deus e para com o próximo.

O próximo como a mim mesmo implica que ele é meu espelho, meu reflexo. Que ele é eu! E eu sou ele!

Mas Jesus não parece estar ensinando que todos os seres humanos são, enquanto seres, um só. Talvez estivesse em Sua mente o desafio de que Seus discípulos tomassem a Trindade como exemplo: Três Pessoas, mas Uma só; Uma só, mas Três Pessoas.

As ideias de um filósofo do século XVIII, Immanuel Kant, dão uma perspectiva nova a este aspecto. Amar o próximo como a si mesmo equivale afirmar que o próximo é meu igual, em direitos e deveres. Não sou maior ou menor, enquanto pessoa, que ele, e o meu próximo não é maior ou menor, enquanto pessoa, que eu. Somos iguais. A minha dignidade é a sua; a dignidade dele é a minha. O que lhe faço, faço a mim mesmo, e o que ele me faz, faz a si mesmo. Usá-lo como objeto é reduzir a minha humanidade; ser por ele usado como objeto é reduzir-lhe a sua.

Neste ponto de Seu Evangelho, Jesus propõe as bases do que poderia ser um sistema ético universal. Como o filósofo tinha, no mínimo, fortes raízes cristãs de perspectiva luterana, talvez tenha se inspirado neste trecho para cunhar sua filosofia moral – sua ética:
1. aquilo que você deseja como correto deverá ser correto para todas as demais pessoas (para o seu próximo)
2. as ações humanas não podem tomar o ser humano como objeto, mas têm no homem o seu fim
3. aquilo que propomos como norma deve ser primeiro obedecido por nós.

A proposta kantiana parece estar de acordo com o primeiro mandamento da Lei, como definido por Jesus. E a este mandamento todos os que dizem ser Seus discípulos são obrigados a obedecer.

Mas é o amor a Deus que dá forma ao amor ao próximo como a nós mesmos. E é Ele que nos ensina como é amar. como bem lembra o apóstolo Joâo: “nós amamos porque Ele nos amou primeiro” (I Jo 4.19).

E a doutrina da graça comum é a que melhor ensina sobre a natureza do Seu amor: a criação não é jogada ao lixo com a queda de Adão, mas a ele são dadas condições para enfrentar agora um mundo hostil; o sol nasce sobre aqueles que recusam a crer, e a obedecer, ao Deus Criador assim como sobre aqueles que a Ele hipotecam obediência; ainda que o mundo todo esteja sob o poder do Diabo (I Jo 5.19) a bondade é encontrada em toda parte, assim como a busca pelo belo, bom e justo. O que a doutrina da graça comum ensina é que Deus não limita sua ação (seu amor, porque amor não é sentimento, é atitude) pela crença ou descrença da humanidade, mas permanece, em amor, dela cuidando.

Eduardo Ribeiro Mundim