Ó Virgem, pela tua bênção é abençoada a criação inteira!

O céu e as estrelas, a terra e os rios, o dia e a noite, e tudo quanto obedece ou serve aos homens, congratulam-se, ó Senhora, porque a beleza perdida foi por ti de certo modo ressuscitada e dotada de uma graça nova e inefável. Todas as coisas pareciam mortas, ao perderem sua dignidade original que é de estar em poder e a serviço dos que louvam a Deus. Para isto é que foram criadas. Estavam oprimidas e desfiguradas pelo mau uso que delas faziam os idólatras, para os quais não haviam sido criadas. Agora, porém, como que ressuscitadas, alegram-se, pois são governadas pelo poder e embelezadas pelo uso dos que louvam a Deus. Perante esta nova e inestimável graça, todas as coisas exultam de alegria ao sentirem que Deus, seu Criador, não apenas as governa invisivelmente lá do alto, mas também está visivelmente nelas, santificando-as com o uso que delas faz. Tão grandes bens procedem do bendito fruto do sagrado seio da Virgem Maria. Pela plenitude da tua graça, aqueles que estavam na mansão dos mortos alegram-se, agora libertos; e os que estavam acima do céu rejubilam-se renovados. Com efeito, pelo Filho glorioso de tua gloriosa virgindade todos os justos que morreram antes da sua morte vivificante, exultam pelo fim de seu cativeiro, e os anjos se congratulam pela restauração de sua cidade quase em ruínas. Ó mulher cheia e mais que cheia de graça, o transbordamento de tua plenitude faz renascer toda criatura! Ó Virgem bendita e mais que bendita, pela tua bênção é abençoada toda a natureza, não só as coisas criadas pelo Criador, mas também o Criador pela criatura! Deus deu a Maria o seu próprio Filho, único gerado de seu coração, igual a si, a quem amava como a si mesmo. No seio de Maria, formou seu Filho, não outro qualquer, mas o mesmo, para que, por natureza, fosse realmente um só e o mesmo Filho de Deus e de Maria! Toda a criação é obra de Deus, e Deus nasceu de Maria. Deus criou todas as coisas, e Maria deu à luz Deus! Deus que tudo fez, formou-se a si próprio no seio de Maria. E deste modo refez tudo o que tinha feito. Ele que pode fazer tudo do nada, não quis refazer sem Maria o que fora profanado. Por conseguinte, Deus é o Pai das coisas criadas, e Maria a mãe das coisas recriadas. Deus é o Pai da criação universal, e Maria a mãe da redenção universal. Pois Deus gerou aquele por quem tudo foi feito, e Maria deu à luz aquele por quem tudo foi salvo. Deus gerou aquele sem o qual nada absolutamente existe, e Maria deu à luz aquele sem o qual nada absolutamente é bom. Verdadeiramente o Senhor é contigo, pois quis que toda a natureza reconheça que deve a ti, juntamente com ele, tão grande benefício. (Das Meditações de Santo Anselmo, bispo – Séc. XII – Liturgia das Horas).

Se discute ou não ?




“Pode enriquecer-se através de um ofício que não lhe agrada, pode ser curado de uma doença por remédio nos quais não confia; mas não pode ser salvo mediante religião na qual não confia, ou por um culto que não lhe agrada […] Seja qual for a religião discutida, é certo, porém, que nenhuma religião pode ser útil e verdadeira se não se acredita nela como verdadeira.” (John Locke, em “Carta Acerca da Tolerância”)
É um lugar-comum ouvir pessoas afirmando que religião, como futebol, não é bom assunto para discussão. Mas há quem escape de cair vez por outra nesse “pecado”?
Como é do meu ofício, costumo refutar esse lugar-comum com muitos exemplos e argumentos, porém é claro que ele tem um fundo de verdade. Não tanto quanto ao futebol, mas com certeza quanto à religião. Pois esta tem a ver com coisas sagradas. Sim, muita gente não discute religião porque considera isso uma questão de absoluta subjetividade; mas para alguns a motivação é bem outra: a religião é vista como algo de absoluta sacralidade.
Nessa semana conversei rapidamente com uma moça que se mostrou extremamente avessa à religião. Entramos no assunto por acaso, mas ela logo fez questão de anunciar seu desgosto com igrejas, leis, pastores, ritos etc. Então eu perguntei sobre Deus e ela disse: “Às vezes estou bem com ele, às vezes nem quero saber. Atualmente estou na fase de não querer saber”.
Típico: aquela atitude para com a religião que reproduz a atitude com biscoitos. Num dia você lamenta não ter biscoitos no armário; no outro, tem enjôo só de pensar.
Imediatamente eu repliquei: “Sim, nossa relação com certas coisas é naturalmente desengajada, utilitária. Podemos decidir se vamos passear ou ficar em casa no feriado. Podemos experimentar suco de uva ou suco de laranja. Mas tem coisa que não dá para experimentar assim, desinteressadamente. Não há como experimentar o que significa ter filhos adolescentes hoje e ‘desesperimentar’ amanhã. Se você entrar num casamento, tiver filhos e cuidar deles até à adolescência, ‘it’s done’. Sua vida está feita. Sua flecha foi lançada. Acabou”. A moça me levou a sério. Ficou de pensar no assunto.
Então, até quando ouvimos essa resposta, “religião não se discute”, temos excelente material de discussão: por que discutimos com facilidade certas coisas, e outras não?
A verdade é que a religião, no sentido daquilo que é momentoso, supremo, que é a fonte absoluta de sentido para o todo da vida, é algo tão sagrado, tão intocável, e ao mesmo tempo tão frágil, que não podemos nos aproximar dela de qualquer jeito. Não é questão de gosto.
Em particular, entrar em um relacionamento com Deus – ou não entrar – não é algo que pode ser experimentado levianamente, como se prova frutas em um sacolão. Somente depois de mergulhar num relacionamento que compromete cada fio do seu cabelo (como é o caso, se falamos de Deus) é que o homem compreende plenamente o que fez, e reconhece em si mesmo todos os efeitos de sua escolha.
Apesar de não ser o foco de John Locke em sua “Carta Acerca da Tolerância”, cujo tema mais amplo é a liberdade de culto em os limites do poder do Estado, tive muito prazer em recolher da fazenda de Locke este pequeno fruto, tão óbvio por um lado, mas tão ignorado por outro.
Muita gente frequenta igreja e não “sente nada”, não vê “nada mudar”, porque nunca deu realmente aquele passo gravíssimo, que só pode ser dado em silêncio e de mãos postas. Muita gente “experimenta” Deus e não vê nada acontecer em sua vida exatamente por isso: porque insiste em se aproximar do evangelho como quem entra em um provador de loja de roupas.
Mais do que todas as coisas na vida, Deus e a verdade cristã só são compreendidos no útero da fé. O cristianismo é uma terapia que nos transforma permanentemente depois que nos submetemos a ela; não dá para entrar e sair da terapia quando se bem entende. Nesse sentido, religião não se discute. Aquilo no qual colocamos a nossa confiança de forma absoluta não se sujeita a um “exame objetivo”.
Isso explica também porque as pessoas são frequentemente tão dogmáticas em assuntos de fé, e não têm com a religião a mesma atitude que têm com a ciência. Muita gente com formação científica não consegue entender isso jeito nenhum. Mas eu descobri que em boa parte das vezes, o estudante de ciências padece de uma combinação de falta de experiência de vida com pura falta de imaginação. Por incrível que pareça, várias pessoas educadas, diplomadas, universitárias, etc., têm personalidade de esteta. Não têm a mais vaga ideia do que significa estar absolutamente comprometido com pessoas (com teorias e programas de pesquisa, talvez).
E o pior tipo de esteta é o teológico, especialmente aqueles que a gente encontra em seminário teológico evangélico (e também na blogosfera, onde ocorre hoje uma infestação desses teólogos sem púlpito). Fui professor por alguns anos em uma faculdade teológica e encontrei isso bastante por lá. Gente que compara correntes teológicas como compara catálogos de preços. Em certa ocasião, fui exortado por alunos (e depois, por professores) a apresentar diversas linhas teológicas sem me posiconar. E diziam que faziam teologia…
Teologia é terapia. É momentoso, grave e arriscado. Tente pegar uma infecção e depois trocar de antibióticos no meio do caminho, interrompendo e retomando o tratamento quando bem entender. Quem não faz teologia confessional é suicida. E quem ensina que religião e teologia são coisas que se decide “objetivamente”, na base do cálculo racional, sem discipulado, tradição e compromisso comunitário, comete grave erro médico. Um conselho: se quiser viver, fique longe desses “profissionais”. Ou, pelo menos, de suas técnicas teológicas.
Há céticos que são convencidos pelo argumento. Mas eu estou convencido de outra coisa: a maior necessidade de muitos céticos educados – assim como a de muitos cristãos sarcásticos e cerebrais – é nem tanto de um bom argumento apologético, mas de um casamento e de uma penca de filhos; ou de uma enfermidade que os torne dependentes de familiares, médicos e tratamentos incertos; de alguma coisa, enfim, que os lembre do significado da palavra “confiança”.
E não será pela mesma razão que tanta gente hoje nem quer mais saber de relacionamentos sérios? Ninguém confia em ninguém na sociedade de hiperconsumo.
Bons tempos aqueles, quando as pessoas temiam discutir religião porque tinham fé, e não por medo de serem processadas por preconceito!
Bons tempos aqueles, quando as pessoas discutiam teologia porque desejavam encontrar o caminho certo, e não para ridicularizar quem ainda acredita que ele existe!

Deus segundo o Cristianismo

No âmago do cristianismo está o conhecimento de Deus. No âmago do cristianismo está o anúncio de que Deus veio até nós, e está conosco. É assim que a igreja primitiva compreendeu a revelação de Jesus Cristo, conforme a antiga profecia de Isaías:

Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel. (Is 7.14)
Emanuel, “Deus conosco”. O Deus Cristão é outro, ou no mínimo mais do que o deus dos filósofos, por dar a si mesmo na revelação. Pois a revelação bíblica não é a revelação de uma determinada quantidade de informações, ou mesmo de informações a respeito de Deus, mas é a revelação de Deus, dele próprio em sua concretude e factualidade, como um supremo Sujeito e um supremo Objeto (não além da relação sujeito-objeto, como o quer Tillich) que se apresenta ao homem e que é um fato final, incontornável, inabsorvível para o pensamento teórico. Inabsorvível para a ciência e a filosofia, mas nem por isso sem significado (como se fosse o fato-bruto-sem-significado dos teólogos Kantianos) mas um fato que é ao mesmo tempo cheio de significado em si mesmo, e que por isso comunica veracidade ao discurso humano; um fato que não é completamente inefável, ainda que não seja completamente dizível.
Como é esse Deus Cristão? Quem é ele? A resposta cristã clássica é: a Trindade. Trindade é o nome cristão para Deus, e é por isso que o Credo Apostólico guarda uma estrutura trinitária, abrindo cada um dos artigos principais com uma referência a uma das pessoas da trindade: “Creio em Deus Pai… E em Jesus Cristo, seu único Filho… Creio no Espírito Santo”. Na verdade, compreender a Deus como trindade é compreender a estrutura essencial da fé e de toda a teologia cristã, e compreender exatamente a singularidade do cristianismo até mesmo diante de todas as religiões ou religiosidades teístas.
A Confusão Evangélica sobre Deus
Um dos mais graves problemas do movimento evangélico atual é a incompreensão de Deus e, particularmente, da trindade. Dependendo do setor desse movimento, encontraremos ênfases teológicas completamente desequilibradas a respeito. Em alguns lugares a ênfase, no louvor, no púlpito e na espiritualidade, está nas experiências com o poder do Espírito Santo; em outros, na justificação pela fé; em outros, na adoração bíblica; em outros, na transformação moral, ou na missão, e assim por diante. Tudo isso é importante, mas não pode ficar no centro. Por uma razão que não poderia ser mais simples e autoevidente: só Deus pode ficar no centro de nossos pensamentos e atividades.
É de lamentar o antropocentrismo que tomou conta dos evangélicos, seja na ênfase na responsabilidade humana (a “nossa parte”) que vemos nos setores menos agostinianos da Missão Integral, seja no tecnicismo eclesiológico das megaigrejas ou no ativismo ligado ao movimento dos “sete montes da cultura”. Toda a controvérsia atual sobre o teísmo aberto é no fundo uma controvérsia sobre a posição do homem no universo. Tudo pode parecer muito piedoso, mas nunca será realmente piedoso um cristianismo que tira Deus do centro.
E uma das provas mais claras de que Deus foi tirado do centro é a completa incompreensão da trindade. Tipicamente, o crente comum pensa que trindade é algo sobre como “deus é um e três ao mesmo tempo, não me pergunte como!”  É um paradoxo matemático. Um enigma numérico justificado com alguns textos-prova destinados a eliminar parte da ansiedade e dar uma resposta “àquelas testemunhas de Jeová que não me dão sossego”. Não é por acaso que muitos se tornaram presas fáceis de tendências como o movimento judaico messiânico brasileiro (que, ao contrário do internacional, é ambíguo e eventualmente herético rejeitando a divindade de Cristo), ou até mesmo de evangelistas islâmicos que começam a despontar no Brasil.
Até mesmo entre os círculos evangélicos mais esclarecidos e ortodoxos, que prezam todas as doutrinas cristãs clássicas e a própria doutrina da trindade, é comum perceber uma perda da conexão orgânica entre a visão de Deus e a soteriologia. Elas são tratadas como campos separados, unidos tematicamente e organizados a partir de coleções de evidências bíblicas, sem o necessárioinsight na relação interna, por exemplo, entre justificação pela fé e encarnação.
E há outro problema: o das conexões da igreja evangélica com o cristianismo histórico. Uma das falhas nas relações de evangélicos com, por exemplo, os cristãos ortodoxos orientais, é a perda do centro trinitário. A recuperação desse centro para a espiritualidade, a teologia e o culto é essencial diante dos desafios do secularismo organizado, do Islã e das igrejas neopentecostais que começam agora a negar o próprio consenso Niceno-Constantinopolitano.
Ao expôr a estrutura e mensagem do Credo Apostólico eu tenho sempre recorrido ao hino de Paulo na sua carta aos Efésios, capítulo 1 versos 3 a 14, que é onde eu encontro a mais bela e perfeita expressão da fé trinitária em sua formulação primitiva. O texto se divide em três seções principais, cada uma finalizando com a expressão “para o louvor da sua glória” (vs 6, 12, 14). Cada seção focaliza uma das pessoas da trindade: primeiro o Pai, depois o Filho, e depois o Espírito Santo. Em cada seção esse foco se traduz em um tema soteriológico distinto: primeiro a nossa eleição e adoção pelo Pai, depois a redenção por meio de Cristo, e por último o selo do Espírito Santo. E para expôr nossa compreensão, vamos empregar a linguagem trinitária de Agostinho: Deus é o Amante, o Amado e o Amor.
Assim o nosso texto começa bendizendo a Deus como o “Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”.
O Amante
Ora, Deus é a fonte, a causa e propósito de todas as coisas. É a origem ou o arché, como dizem os filósofos. Mas antes de tudo ele é o Pai, e isso significa que ele existe no interior de uma relação. Deus não se tornou o Pai em certo momento, não adquiriu essa qualidade como uma característica acidental ou contingente, como se ele pudesse ter sido outra coisa; mas desde sempre foi o Pai de nosso Senhor, e isso é tão essencial à sua identidade quando o ser Filho é essencial à identidade de Jesus Cristo. A própria paternidade humana não é – ao contrário do que alguns teólogos alegam – a projeção de uma analogia humana no céu, como o fim de esclarecer a experiência religiosa, mas o modelo a partir do qual a paternidade humana foi analogicamente criada por Deus, e continuaremos sempre necessitando da analogia criada, ainda que corrompida pela perversidade humana.
Deus é o Pai, a fonte de todas as coisas, e isso significa que ele tem um Filho antes da fundação do mundo. A física moderna revelou que antes do Big Bang não havia nem tempo nem espaço (pois eles são relativos entre si). Sem dúvida antes da fundação do mundo não houve “antes”, a não ser metaforicamente; ou talvez existisse outra ordem temporal, correndo em outro universo sobre outro eixo direcional, em si mesmo independente do nosso tempo-espaço (ou até outros universos, com outros eixos). Mas então, “antes” da fundação do mundo Deus, já era o Pai de seu Filho e já “tinha” nos escolhido para sermos “santos e irrepreensíveis diante dele”.
Então há, antes de tudo, antes do Gênesis, uma relação. Antes do princípio havia essa relação. O mais maravilhoso, no entanto, é que nosso destino estivesse associado exatamente a essa relação. Pois antes de todas as coisas fomos escolhidos “Nele”. E “Ele” é o Filho de Deus.
O Amado
O Filho estava lá antes de tudo; “nele foram criadas todas as coisas, e nele tudo subsiste” (Cl 1.17). Mais do que isso: “tudo foi criado por meio dele e para ele” (Cl 1.18). O mundo foi feito para o próprio Senhor Jesus. Então – que coisa chocante! – o mundo inteiro é um episódio desse relacionamento do Pai com o Filho; pois o Pai fez o mundo por meio de Cristo, mas não fez para si mesmo, e sim para o próprio Jesus Cristo.
“Sem Jesus Cristo o mundo não existiria, pois teria que ser destruído ou se transformaria em um tipo de inferno.
Se o mundo existisse para ensinar o homem sobre Deus, sua divindade brilharia em todas as suas partes de uma forma incontestável. Mas como ele existe apenas através de Jesus Cristo e para Jesus Cristo, e para ensinar o homem sua corrupção e sua redenção, tudo nele faísca com provas dessas duas verdades.”
     Blaise Pascal, Pensées
Ora, se o mundo existe para Jesus, não há a menor possibilidade de entender o mundo e muito menos de se relacionar corretamente com ele sem compreender Jesus Cristo, ou seja, sem colocar-se a seu lado, andar com ele, aprender dele a olhar as coisas. E quando aprendermos a olhar as coisas, aprenderemos que elas existem dentro do relacionamento do Pai e do Filho, não tendo qualquer sentido fora dele. Por isso o homem jamais encontrará Deus no mundo, sem olhar para Jesus Cristo. Pelo contrário, ele deve estar em Jesus Cristo para compreender o mundo.
Assim o texto de Paulo prossegue dizendo que nosso destino é a Adoção; fomos predestinados para a adoção de filhos por meio do Filho. E essa é uma revelação ainda mais supreendente: que em Jesus Cristo somos incorporados na relação eterna que havia antes entre o Pai e o Filho, sendo exatamente esse o sentido da “Graça gratuita” no versículo 6. A obra divina de enviar seu Filho para o sacrifício da cruz visava nos incluir Nele, para nos tornar co-participantes de sua posição elevada de Filho e Herdeiro do mundo. Pois o objetivo de Deus é realmente fazer tudo convergir em Cristo, diz o verso 10; o mundo é um episódio dessa relação; mas se somos postos em Cristo, abençoados, escolhidos e adotados nele, então o próprio mundo se torna um episódio da nossa própria relação com Deus, em Jesus Cristo (1Co 3.21-23).
É assim também que devemos entender o sentido da Encarnação. Não se trata apenas de que o Verbo precisasse assumir plenamente a natureza humana para receber o juízo do pecado e produzir uma obediência humana perfeita – o que é, sem dúvida, verdadeiro e maravilhoso – mas que sem a encarnação o humano continuaria sendo tão somente o criatural com seus direitos criaturais; na encarnação o humano é abraçado pelo divino, é feito seu irmão e seu Filho, recebendo direitos inimagináveis para a mera criatura. Não, a encarnação não apenas reverte os efeitos da Queda; ela eleva o homem para uma outra posição, transportando-o para o seio da divindade. Ela nos torna “co-participantes da Natureza Divina” (1Pe 1.4). Não, é claro, no sentido de uma alegada “injeção de divindade”, como alguns heréticos neopentecostais alegaram anos atrás, mas por adoção e transfiguração. Isso é a verdade da theosis, tão preciosa aos cristãos orientais. Sem encarnação, poderia haver, talvez, perdão, mas jamais adoção.
E tudo o que diz respeito a essa relação divina nos é comunicado. Nos tornamos, assim, amados como ele é – “o Amado” (vs 6). E essa expressão não está aí, em Efésios, por acaso. Esse é o título dado a ele pelo Pai quando de seu batismo, quando o Espírito também desce sobre ele (Mt 3.16,17). A descida do Espírito Santo sinaliza a identidade e a relação que o Filho tem com o Pai. E isso com certeza também diz respeito à nossa experiência de Deus.
O Amor
O Espírito Santo é o selo que recebemos com a fé, que não apenas garante, mas que sinaliza a nossa verdadeira identidade e destino, que é herdar o mundo com Cristo e sermos recebidos pelo Pai através de Cristo. O Espírito foi chamado por Agostinho de Vinculum Caritatem, ou Vinculus Amoris, o vínculo do amor, a verdadeira comunhão entre o Pai e o Filho. Daí a tradição dizer que o Espírito procede do Pai e do Filho. Não é por acaso que o dom do Espírito está sempre associado à nossa união e inclusão em Cristo: Paulo dirá que por estarmos em Cristo recebemos o Espírito (Gl 3.14,16,22,27-29); Pedro diz que a promessa do Espírito foi dada a Cristo, antes de tudo, e que apenas em seu nome ela poderia ser recebida (At 2.33, 38).
Esse é o sentido da alegoria do batismo de Jesus: ele é o homem que ao aceitar a identificação com os pecadores no batismo, recebe tanto o Espírito, representado na pomba, como o testemunho do Pai, “Tu és o meu Filho Amado”. O testemunho do Pai interpreta a ação do Pai: o Pai dá o amor, no Espírito, e por isso diz “tu és meu Filho Amado”. Igualmente, quando nos batizamos aceitando a identificação realizada por Cristo, somos “revestidos” dele, e o Espírito pode descer sobre nós. E quando ele desce, ouvimos a voz do Pai, pois “o próprio Espírito testifica com o nosso espírito de que somos filhos de Deus” (Rm 8.17) e também testifica que, já que somos filhos, participaremos tanto do sofrimento quanto da herança de Cristo (Rm 8.18). O Espírito é assim a presença de Deus em nós, e ao mesmo tempo a nossa presença no seio de Deus; no Espírito vivenciamos a relação entre o Pai e o Filho, para o interior da qual fomos transportados pela Encarnação. Por isso, o Espírito é o amor-comunhão do Pai e do Filho, e também a nossa comunhão com o Pai e com o Filho (Jo 14.17-20). Assim como o Filho é a “Palavra” mas não deixa de ser uma pessoa, o Espírito é a “Comunhão” sem deixar de ser uma pessoa divina; ele é o amor, a comunhão pessoal da trindade.
A Experiência Cristã é Trinitária
Assim o Pai é a fonte do Amor, o Filho o depósito do Amor, e o Espírito Santo a comunhão do Amor; e para nós essa relação se torna a Origem do Amor, a dádiva do amor (Graça) e a comunhão do amor, exatamente como descreve a bênção apostólica (1Co 13.13). A diferença está em Cristo: pois pela Encarnação e pela Páscoa ele se tornou, de depósito eterno do Amor do Pai, em dádiva histórica do amor divino. Jesus é o ponto de conexão com Deus, pois nele somos introduzidos na eterna relação divina.
Por isso, o cristianismo é a um só tempo trinitário e cristocêntrico. Mas o cristocentrismo existe dentro do trinitarismo. Cristo é a porta para entrarmos na comunhão divina; mas ele é a porta para uma comunhão de três pessoas em uma única divindade.
por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito. (Efésios 2.18)
Acesso ao Pai; acesso, por ele; acesso em um mesmo Espírito, o que nos torna um único corpo, uma família e um templo (Ef 2.16-22). Ora, o que temos, enfim, é uma experiência trinitária de aceitação. O Deus cristão foi experimentado trinitariamente, como o Deus todo poderoso que enviou seu Filho Jesus, como o Deus-homem, o verbo encarnado no tempo e no espaço, que podia ser tocado e que confrontou o mal diretamente na cruz e na ressurreição, e como a presença divina que assegura o amor divino e nos faz orar “Aba, Pai”. Ser um cristão é experimentar Deus dessa forma tripla, como o infinito pessoal que originou todas as coisas, revelado na pessoa de Jesus e presente como consolador no coração e na Igreja; é reconhecer o mesmo Deus nas três experiências, e compreender que as três experiências são indissociáveis da fé em Jesus Cristo.
Por isso a doutrina da trindade não é e não pode ser ensinada como um “dilema matemático” de “três ou um”. Não se trata de números, mas de relações. É claro que há um paradoxo, mas ele nem mesmo é numérico; é ontológico. Não podemos explicar como um ser pode ser pessoal, infinito e ainda triúno – C. S. Lewis diz que isso seria o “superpessoal”, ao que estou inclinado a concordar. Pois se há um Deus, faz todo sentido que seu ser seja não somente necessário e incondicionado, mas também transcendente e ultimamente insolúvel em termos da razão finita. Mas compreender a trindade não é especular sobre a natureza do Ser ou sobre o “três-em-um”, e sim entrar na relação trinitária. O mais importante não é o mistério incompreensível, mas o que nos é revelado e seu significado absolutamente prático, urgente, e existencialmente supremo.
Por isso também, Santo Atanásio disse que ninguém poderia ser salvo sem crer na trindade. Não é porque crer na trindade seja uma condição de membresia no “checklist” do céu. É porque ser salvo e ser admitido na comunhão trinitária são uma e a mesma coisa. Conhecer a Deus é conhecer o Deus que se dá a nós em Jesus, nos unindo a ele pelo Espírito Santo. E é isso o que o Credo Apostólico descreve de forma resumida: a experiência de encontrar o Deus que está presente:
No Centro, a Beleza
Nunca vou me esquecer quando li, há uns dez anos atrás, a entrevista de Rubem Alves à revistaVeja dizendo que o centro da teologia cristã (ou será protestante? Não tenho certeza quanto a esse ponto) era o inferno, e que ao se remover o inferno todos os parafusos e pinos da teologia cristã se soltariam. Na época eu ainda não sabia exatamente porque, mas tinha certeza de que algo estava errado.
E o tempo mostrou que o que estava errado era tudo. Seria difícil ser mais misantrópico que isso. O centro da teologia cristã não é o inferno, é a trindade. E a trindade significa, para nós, adoção. Nós, criaturas, não somos filhos por natureza; Pai-Filho é uma relação interna da divindade, incriada e eterna. Salvação não é meramente ser livrado do inferno, mas acima de tudo ser trazido para dentro dessa relação, Nele. Isso é mais do que livrar-se da ira divina; é um conhecimento exclusivo, incriado e eterno, que só o Filho tinha, e só ele poderia compartilhar (Mt 11.27). Rubem Alves errou duas vezes, mas seu maior erro não foi rejeitar a doutrina do inferno (pois essa é uma doutrina boa e necessária), e sim não enxergar a verdade sobre o céu. Pois no centro da fé cristã mora a beleza, que está guardada nos céus e nos espera de braços abertos.
Pensemos no ícone do grande Rublev, “a Hospitalidade de Abraão”. Ali estão as três figuras, duas olhando uma para a outra, uma na posição central, e uma terceira olha para a relação das outras duas. O ícone representa a trindade; mas o ícone é também um convite. A hospitalidade de Abraão é na verdade a recepção de Abraão na comunhão divina, como um amigo de Deus; muito mais do que isso, o Novo Testamento revelaria, como um Filho de Deus. Agora estamos dentro da pintura, sendo olhados pelo Pai em seu Filho, sob as asas do Espírito Santo; e a vinda do Amado em carne é a hospitalidade divina que iluminou para sempre o nosso destino.
Encerro com as palavras de Karl Barth:

“O que Deus é e faz em seu Filho, concerne diretamente a você, vale para você e lhe beneficia. O que é verdadeiro na eternidade, no próprio Deus, torna-se verdadeiro aqui e agora no tempo. De que se trata? Nem mais nem menos de que de uma repetição da vida divina, repetição que nós não podemos nem provocar, nem suprimir, que o próprio Deus suscita no mundo que ele criou, vale dizer, fora dele. Glória a Deus nos lugares altíssimos!”
Amém!

Quando a ressaca moral chega, termina o Carna val

Fico pensando a razão das alegrias de quem brinca carnaval e de quem serve a Cristo. Um tem uma alegria de fora para dentro, o outro, de dentro para fora. Uma alegria é superficial, a outra, eterna.

Dois alimentos. Dois banquetes. O banquete do Espírito e o banquete da carne. Um é para quem vive por fé, o outro, por vista. 

Feliz é quem experimenta a alegria de Cristo. Quem se deixa tomar pelo seu modo de viver. Todos quem vêm a Cristo encontraram descanso sob a sombra da cruz. Essa alegria é tão real quanto a vida que temos.

O deus Baco é conhecido como o deus da alegria e do vinho, e o mesmo é um dos patronos do carnaval, juntamente com seu correlato Momo, da Grécia; deuses da alegria e da anarquia. Adoram a eles, mesmo que não saibam ou não queiram admitir isso.
Prefiro a alegria de Cristo, que é verdadeira, constante. Essa alegria me faz querer ser santo, agradar a Deus e viver para ele. Essa alegria me faz ter amor e pensar no céu, eu lar, de onde sou cidadão. Não preciso me entregar aos prazeres da carne, satisfazer essa natureza podre. Cristo me preenche todo, nele tenho descanso – Mt 11.28. Nele tenho paz, pois é o príncipe da paz . 

O carnaval passou e a alegria se foi com a ingratidão de uma quarta-feira, segundo Capiba, compositor pernambucano de frevo e outros ritmos. Ficam frustrados, dormindo pelas calçadas e cheios de drogas. Tristes e melancólicos, não sabendo porque fazem aquilo, sem forças para se libertarem disso. 

Eles sentem necessidade disso, pois são dominados pela natureza carnal, e é o único prazer que possuem; para eles não existem outros, devido ao fato de ainda não terem nascido de novo, como Nicodemos e pensarem que nada é melhor que isso que tanto curtem. Quando aceitam a Cristo percebem que eram cegos, miseráveis, pobres e nus. 
Viva a alegria de Cristo, que não precisa de nada que venha a destruir o corpo, morada de Deus. Ele é o manjar, o carnaval é o lixo. E estou acostumado com comidas finas, de alta categoria e qualidade que não perde a validade. Tenho em mim o desejo pelo que é eterno, e isso é o que vale de verdade. Isso é experimentar o eterno. Paz e bem

É na fraqueza que a graça é abundante

Na história do Antigo Testamento, de vez em quando aparecem certos verbos que dão a entender que alguma coisa estava perdida e foi achada. Por ocasião da reforma do templo de Jerusalém, na época de Josias, por exemplo, o sumo sacerdote Hilquias encontrou o livro da Lei (2 Rs 22.8).
 
Na época de Neemias, “descobriram na Lei que o Senhor tinha ordenado, por meio de Moisés, que os israelitas deveriam morar em tendas durante a festa do sétimo mês” (Ne 8.14). Pouco depois, achou-se também “que nenhum amonita ou moabita jamais poderia ser admitido no povo de Deus” (Ne 13.1). Eram fatos sérios perdidos ou esquecidos em épocas de crises. Daí a necessidade de se redescobrir certas coisas que ainda estão esquecidas ou relegadas a planos inferiores.
 
A descoberta do paradigma
O modelo de comportamento ordenado por Deus aos cristãos não é outro senão aquele que foi dado aos israelitas na travessia do deserto: “Consagrem-se e sejam santos, porque eu sou santo” (Lv 11.44; 19.2; 20.7).
 
Jesus apresentou o mesmo padrão de conduta logo no início do sermão do monte: “Sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês” (Mt 5.48).
 
Paulo bate na mesma tecla: “Deus nos escolheu nele [em Cristo] antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença” (Ef 1.4) e “Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santidade” (1 Ts 4.7).
 
Pedro traz à tona o velho argumento de que a santidade de Deus nos obriga a ser santos: “Assim como é santo aquele que os chamou, sejam santos vocês também em tudo o que fizerem, porque eu sou santo” (1 Pe 1.15-16).
 
Precisamos ter certeza absoluta de que a mentira, o suborno, a soberba, a profanação do santo nome de Deus, o egoísmo, a injustiça social, e o orgulho ainda são pecado, e de que o casamento ainda deve ser heterossexual e estável.
 
Em tempos difíceis e sombrios, de generalizada corrupção, o paradigma precisa ser redescoberto. Foi o que aconteceu por ocasião do 18º ano do reinado de Josias (2 Rs 22.8-23.25), bem como em outras ocasiões na história bíblica e na história da igreja (por ocasião da Reforma e em épocas de autênticos reavivamentos).
 
A descoberta da dificuldade básica
O maior problema do homem não são nem a influência esmagadora da presente ordem deste mundo, vendido ao pecado, nem a atuação satânica. Certamente a sua dificuldade maior, mais antiga, mais entranhável, mais escondida, mais resistente e mais incontida não é outra senão o pecado residente. É Jesus quem chama a atenção para a realidade desse problema: “O que sai do homem é que o torna ‘impuro’. Pois do interior do coração dos homens vêm os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos. Os homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a calúnia, a arrogância e a insensatez. Todos esses males vêm de dentro e tornam o homem ‘impuro’” (Mc 7.20-23). Numa linguagem mais rústica, o que Jesus está afirmando é que nós somos uma lata de lixo. Ele não é o único a pôr o dedo no lugar exato da ferida. Salomão assevera que o coração humano “está cheio de maldade e de loucura durante toda a vida” (Ec 9.3). Tiago ensina que a tentação nunca vem da parte de Deus: “Cada um, porém, é tentado pelo próprio mau desejo, sendo por este arrastado e seduzido” (Tg 1.14). Nossas dificuldades de relacionamento social, inclusive, vêm das paixões que guerreiam dentro de nós (Tg 4.1).
 
Na prática, existe uma “guerra civil” que vai perdurar até a volta do Senhor. Paulo explica: “A carne [a bagagem pecaminosa que carregamos] deseja o que é contrário ao Espírito [a presença do próprio Deus em nós]; e o Espírito, o que é contrário à carne” (Gl 5.17). “Estas duas forças dentro de nós”, continua o apóstolo, “estão lutando constantemente uma contra a outra, a fim de ganharem o domínio sobre nós, e os nossos desejos nunca estão livres de suas pressões” (Gl 5.17, BV).
 
A melhor exposição da dificuldade básica para se alcançar o paradigma da conduta ideal é a da lavra de Paulo. O apóstolo investiga-se acuradamente para encontrar a razão da teimosia, da freqüência, da perseguição e da ousadia do pecado. Então ele descobre o tal pecado residente: “Neste caso [de fazer não o que desejo, mas o que odeio], não sou mais eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim” (Rm 7. 17, 20); “Quando quero fazer o bem, o mal está junto a mim” (Rm 7.21); “No íntimo de meu ser tenho prazer na Lei de Deus [o tal paradigma]; mas vejo outra lei atuando nos membros de meu corpo, guerreando contra a lei de minha mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros” (Rm 7.22-23).
 
Não há outra doutrina bíblica e teológica tão universalmente aceita quanto a teologia do pecado residente, tanto na literatura religiosa como na literatura secular. Na literatura secular não se usa a palavra “pecado”. Os que abordam o assunto preferem usar outras expressões sinônimas : “o lado ruim”, “o lado animal”, “o lado crápula”, “o lado diabólico”, “a parte maldita”, “o fantasma interior”, “o impulso negativo”, “o instinto agressivo”, “o lixo emocional”, “o leão adormecido”, “o demônio escondido” e até “o espírito porco”. (Veja O drama do “pecado residente” na versão religiosa e O drama do “pecado residente” na versão secular)
 
A descoberta do messias
Logo após o seu primeiro encontro com Jesus, André revelou a Pedro: “Achamos o Messias” (Jo 1.41).
 
Se as descobertas do paradigma e do pecado residente são descobertas iniciais, desconcertantes e opressivas, a descoberta do Messias é simplesmente maravilhosa. O Messias (o Salvador) não é outro senão o Senhor Jesus Cristo, que Paulo chama inteligentemente de “o segundo Adão”, para diferenciá-lo do “primeiro Adão”.
 
O primeiro Adão foi criado à imagem e semelhança de Deus no paraíso do Éden. Recebeu da parte do criador liberdade e capacidade para mandar e desmandar, mas pôs tudo a perder, tanto a criatura como a criação. Por meio dele, “o pecado entrou no mundo” e “pelo pecado a morte” (Rm 5.12). Pecado e morte, irmãos gêmeos, são as duas maiores desgraças da raça humana, invencíveis e irremovíveis sem a manifestação da graça de Deus.
 
Já o segundo Adão veio para remover os escombros deixados pela queda e reconstruir o paraíso perdido. Está escrito: “Assim como por meio da desobediência de um só homem [o primeiro Adão] muitos foram feitos pecadores, assim também, por meio de um único homem [o segundo Adão] muitos serão feitos justos” (Rm 5.19).
 
O primeiro Adão é o único responsável pela grande destruição. E o segundo Adão é o único responsável pela grande reconstrução. O Adão do Éden trouxe o pecado para o mundo. O Adão do Getsêmani é o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29).
 
Achar o Messias significa enxergar uma porta aberta no drama do pecado e no drama da morte. Significa enxergar nitidamente uma luz no fim do túnel.
 
Em duas ocasiões diferentes Paulo dá graças a Deus por Jesus Cristo com profundo senso de gratidão e real conhecimento de causa. No primeiro “Graças a Deus!”, ele agradece porque Jesus Cristo é aquele que lhe dá a vitória sobre a força monstruosa do pecado residente (Rm 7.24-25). No segundo “Graças a Deus!”, ele agradece porque Jesus Cristo é aquele que lhe dá a vitória sobre o poder monstruoso da morte física (1 Co 15.57). Se o pecado é a dificuldade básica, a morte é “a angústia básica de todo ser humano”, “a grande neurose das civilizações” e uma das mais teimosas e iniludíveis manifestações da finitude e impotência humana”.
 
A descoberta do Messias é a maior e mais feliz de todas as descobertas! 


O casamento


Os noivos vêm à Igreja para se casar diante de Deus e da comunidade cristã, pois sentiram que esse amor que nascia se oferecia como uma promessa de felicidade.

Foi tão profunda a experiência de amor, que o casal decidiu fazer com que durasse para sempre. Então, cada um diz a si mesmo: “Minha felicidade depende desta pessoa extraordinária com a qual me encontrei. Percebo que sem ela eu não posso crescer, não posso ser feliz; necessito dela. Por isso quero unir minha vida a dela.
Iniciam o caminho do matrimônio, cheios de esperança. Mas o que significa o sacramento do matrimônio para a história de amor que estão vivendo?

Penso que a grande maioria dos casamentos cristãos não tem muito claro esse significado. Existe muito de costume, de rotina e até de pressão familiar nisso. Muitos creem que o casamento não é mais que uma simples bênção do próprio amor – assim como se abençoa um automóvel ou uma medalhinha – para que Deus os proteja e não lhes suceda nenhum mal.

Eu sei que esse não é o conceito que vocês têm deste sacramento, porque o verdadeiro sentido do matrimônio cristão é que, através dele, o Senhor faz algo com o amor, modificando-o. Deus o faz diferente do que era quando entraram na Igreja.

Algo semelhante aconteceu na Última Ceia, quando o Senhor transformou o pão em Seu Corpo. O pão continuou parecendo pão, mas já não o era, mas sinal de que lá está o Corpo de Cristo.

A mesma coisa faz o Senhor com o amor no dia do casamento. Deus toma o amor dos noivos e o transforma em sinal e em presença de Seu próprio amor divino.
O amor continua sendo o mesmo, mas ao mesmo tempo é mais, assim como a hóstia consagrada é mais do que pão. O amor do casal recebe a missão de ser sinal e reflexo do amor de Deus entre os homens.

No sacramento do matrimônio, os noivos vão aceitar essa missão. Vão dizer ao Senhor: “Sim, aceito que meu amor se transforme em reflexo do Seu”.
Quero amar meu cônjuge não segundo meus desejos, mas tratar de amá-lo como o Senhor ama a Igreja, como Ele ama a humanidade inteira, como ama cada ser humano.
No profundo de seu coração, eles dirão um ao outro: “Eu o aceito como a pessoa por meio da qual Cristo vai se aproximar de mim. Eu sei que o Senhor se aproxima de mim através de muitas coisas, de muitas pessoas e acontecimentos, mas, ao me casar com você, eu o aceito como o grande caminho pelo qual Cristo vai se aproximar de mim.

Cada um se aceita e se doa ao outro como lugar privilegiado de encontro com o Senhor. Cada um se transforma para o outro em santuário vivo, onde encontra Cristo. O rosto da esposa e do marido se transformam no rosto de Cristo: rosto cheio de amor, de ternura, de generosidade, entrega e fidelidade. Por isso, Deus os chama a se transformar em sinais permanentes de amor em sacramentos vivos.

O importante da cerimônia do casamento não é o vestido da noiva nem a quantidade de convidados, mas o encontro profundo com o Deus do amor.
No livro do Apocalipse e na tradição cristã há uma imagem muito bonita, que é a imagem de Cristo como sol. Sabemos que o sol é a fonte de luz, de calor e de vida.
Jesus é nosso sol, porque Seu amor ilumina, esquenta e vivifica nossa existência. E isso significa o quê? Cada um há de ser Sol de Cristo para o outro: dar-lhe luz, calor e a vida que necessita para crescer.

Vocês se casam, porque cada um descobriu que o outro era seu sol; porque o encontro com o outro o fez sentir feliz, seguro, aceito. Então, decidiram se casar para seguir sendo sol do outro, para continuar doando, mutuamente, essa luz.
Queridos irmãos, peço a Deus e a Santíssima Virgem, Mãe do amor bonito, que cada um seja Cristo para o outro, seja sol de Cristo para o outro.
Pe. Nicolás Schwizer
Movimento apostólico Shoenstatt

PALAVRA EFICAZ

“Desconhecer a Sagrada Escritura é ignorar o próprio Cristo”. (São Jerônimo)


A Igreja no Brasil nos habituou a celebrar em setembro o mês da Bíblia. Talvez muitos não saibam a origem desta celebração. A escolha deve-se ao fato de que em setembro, no dia 30, se recorda São Jerônimo, autor no século IV da tradução latina da Bíblia e grande estudioso, apaixonado pela Sagrada Escritura.
Na Escritura, Deus se revela através de palavras e de acontecimentos intimamente entrelaçados, de tal sorte que as obras ajudam a manifestar e a confirmar os ensinamentos e realidades significadas pelas palavras; e estas, por sua vez, proclamam as obras e elucidam o mistério nelas contido (cfr. DV 2/162). A Palavra de Deus tem sido muitas vezes esquecida pelos católicos, talvez precisando aprender dos irmãos protestantes o amor e a paixão por ela. Lançamos o convite a todos de que pelo menos durante este mês, possamos tomar nossas Bíblias nas mãos para ler e meditar sobre o que a Palavra tem a nos dizer. Propomos o texto de Isaías 55, 10-11.


Contexto
O texto faz parte do chamado Deutero-Isaías, o qual é um profeta que exerce a sua missão entre o Povo de Israel exilado na Babilônia, procurando consolar e manter acesa a esperança em meio à amargura, desilusão e decepção instaladas no meio das pessoas. Os capítulos que recolhem a sua mensagem (Is 40-55) são conhecidos como o “Livro da Consolação”.
Na primeira parte (Is 40-48), o profeta anuncia aos exilados a libertação do cativeiro e um “novo êxodo” do Povo de Deus rumo à Terra Prometida; já na segunda parte (Is 49-55), o profeta fala da reconstrução e da restauração de Jerusalém.
Estes três versículos fazem parte do final do “Livro da Consolação”. Depois de convidar o Povo (que ainda está na Babilônia) a buscar e invocar o Senhor (Is 55, 6-9), o profeta relembra a eficácia da Palavra de Deus que acabou de ser proclamada aos exilados (Is 55, 10-11).


A dificuldade
Em nível histórico, estamos na fase final do Exílio (por volta dos anos 550/540 a.C.). A comunidade exilada está cansada de belas palavras e de promessas de libertação que tardam em concretizar-se. A impaciência, a dúvida, o ceticismo vão minando lentamente a resistência e a fé das pessoas. De modo que entre o Povo surge a pergunta: será que as promessas de Deus se concretizarão? Ele não está sendo demasiado lento, em relação a algo que exige uma intervenção imediata? Deus terá se esquecido da situação do seu Povo?


A resposta
Não – diz o profeta – Deus não se esqueceu do seu Povo. A sua Palavra não deixará de se concretizar, pois Ele é eternamente fiel às suas promessas. A Palavra de Deus é eficaz, transformadora, geradora de vida. Ela nunca falha.Para expressar a ideia da eficácia desta Palavra, o profeta utiliza o exemplo da chuva e da neve: assim como a chuva e a neve que descem do céu fecundam a terra e multiplicam a vida nos campos, assim a Palavra de Deus não deixará de se concretizar e de criar vida plena para o Povo de Deus. A imagem é extremamente sugestiva. Devia certamente recordar aos judeus exilados na Babilônia as chuvas que caem no norte de Israel e as neves do monte Hermon. Essa água caída do céu alimenta o rio Jordão; e este, por sua vez, corre por toda a terra de Israel, deixando um rastro de vida e de fecundidade. A Palavra de Deus é como essa água bendita caída do céu que, inevitavelmente, gera a vida que alimenta o Povo de Deus.


Palavra de esperança
A Palavra de Deus é um convite à confiança, ao otimismo, à esperança e à certeza de que Ele é fiel às suas promessas e que a sua Palavra se torna realidade. Em nossa vida por vezes nos sentimos frustrados ao olhar que os maus, os corruptos, os violentos, parecem triunfar sempre e nunca são castigados pelo seu egoísmo e prepotência, enquanto que os bons, os justos, os humildes, os pacíficos são continuamente vencidos, magoados, humilhados… Então perguntamos: podemos confiar nas promessas de Deus? A Palavra de Deus que hoje nos é proposta responde a estas dúvidas. Ela garante que não falha; ela indica sempre caminhos de vida plena, de vida verdadeira, de liberdade, de felicidade, de paz sem fim.
A Palavra nos dá esperança, indica-nos os caminhos que devemos percorrer e nos dá ânimo para intervirmos no mundo. Ela não só não adormece a nossa vontade de agir, mas revela-nos os projetos de Deus para a humanidade, convidando-nos ao compromisso com a transformação e a renovação do mundo, isto é, com a construção do Reino.


Sem tempo?
“Tempo é dinheiro” é a famosa frase que parece estar nos acompanhando nestes tempos que correm. Passamos a vida numa correria louca, contando os minutos, sem tempo para as pes­soas, sem tempo para nós, sem tempo para Deus. Tornamo-nos impacientes e exigentes. Achamos que ser eficiente é ter feito ontem aquilo que é pedido para hoje… E achamos que Deus também deve seguir os nossos ritmos. Queremos que Ele aja imediatamente, que resolva logo os nossos problemas, que atue de imediato, ao sabor dos nossos desejos e projetos. É preciso, no entanto, aprender a respeitar o ritmo de Deus, o tempo de Deus. Na Palavra aprendemos a conhecer e respeitar os tempos de Deus, que sempre realiza a sua Palavra.


* Patrick Gomes Silva, imc, é diretor do Centro Missionário José Allamano.
 
Última Alteração: 10:53:00
Fonte: Revista Missões
Local:São Paulo (SP)